Quarta-feira, 3 de Janeiro de 2007

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(IX)

 

PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
(1944-1949)(IX)
 
 
(CONTINUAÇÃO)
 
 
ESTILO DE VIDA DOS MOLEIROS
 
 
Os moleiros, com um trabalho, que, embora pesado e penoso, não conheciam o descanso, consideravam-se livres e independentes de qualquer vínculo de submissão a quem quer que fosse.
 
A maior parte deles possuía engenhos próprios, construídos por si ou herdados de familiares. Poucos eram os que trabalhavam em estabelecimentos arrendados.
 
Na sua labuta do dia-a-dia os moleiros recebiam uma preciosa ajuda da família, muitas vezes, numerosa.
 
A esposa, também moleira, participava, activamente, com o marido, nas diferentes tarefas necessárias ao desempenho da profissão, que iam desde a moagem até ir à freguesia. Raramente o casal contratava assalariados, por não necessitarem de o fazer ou por ter receio de serem, por eles, enganados.
 
Os filhos mais velhos, enquanto não tivessem ocupação própria, ajudavam os pais na picagem das pedras, iam à freguesia, ... .
 
A vida que levavam caracterizada por um trabalho permanente, apesar de não os tornar pessoas ricas, fazia dos moleiros cidadãos remediados, com vantagens em relação a outras profissões que nem sempre tinham garantido trabalho anual permanente.
 
Os rendimentos líquidos que recebiam, anualmente, pelo seu trabalho não são fáceis de calcular, dado que os moleiros não possuíam contabilidade organizada. Eles dependiam de múltiplos factores a saber: quantidades de cereais transformado; localização dos engenhos, número de fregueses com e sem cereal próprio; número de animais utilizados na profissão, das condições climáticas, ... .
 
As receitas provinham não só da maquia que cobravam pela transformação dos cereais dos fregueses, que oscilava entre os 10 e 15%, como também do cereal que compravam e depois vendiam, após a sua transformação. Aqui o lucro não poderia exceder os 15%.
 
Quanto às despesas havia a considerar: A contribuição industrial (500$00/ano); Taxa a pagar à Comissão Reguladora da Moagem de Ramas(480$00/ano, em 1943), sustento dos animais: palha, feno, bandeiras de milho, rações de milho, favas; ferragem( 4 ferraduras por animal); tosquia anual dos animais; aquisição e conserto de carroças, de albardas, de cordas de enquerir, sobrecargas e cabretos, de sacaria, de pás de madeira e corredores e de picos; iluminação: azeite e petróleo. Nas azenhas de roda hidráulica havia despesas constantes com dentes da entrosga e de “fúseis” que, por serem de madeira partiam com facilidade.
 
Embora não possuíssem contabilidade, será possível, de uma forma aligeirada, calcular o rendimento ilíquido de um moleiro que trabalhasse nove meses numa ribeira e três no Tejo.
 
Segundo os dados fornecidos pelos nossos informadores, um moleiro poderia moer, em 1950 :
 
MILHO
 
Em engenho de rodízio: 180 diasx14 alqueires=2520 alquires
                                        90 diasx5 Alqueires=0450 alqueires
                                                            -------------------------------
                    SOMA=2970x12%=356 alqueiresx18$00=6 408$00
 
Em engenho de roda hidráulica: 2970x2=5940 alq.x12%=712 alqueiresx18$00/alq.=12 816$00
 
Com engenho no Tejo 45 diasx96 alq/dia=4320
                                   45 diasx40 alq/dia=1800.alq.
-                             ______________________________
                                        SOMA=6120 alq.x12%=734 alq.x18$00=13 212$00
 
 
TRIGO
 
Em engenho de rodízio:180 diasx3 alq/dia=540 alq.x12%=64,8 alqueiresx22$00/alq.=1 425$60
 
Como a maioria dos moleiros de Mouriscas não dispunha de azenha nas ribeiras nem no Tejo, o seu rendimento anual era variável:
 
Para os que somente tinham moinho de rodízio:
 
          -do milho moído recebiam de maquia: 6 408$00
          -do trigo moído recebiam de maquia:    1 425$60
                                                  _____________    
                                                  Total de      7 833$60:365 dias=21$50/dia
 
Para aqueles que possuíam moinho de rodízio e azenha(roda hidráulica:
 
          -dos moinhos de rodízio do milho e trigo recebiam de maquia: 21$50/dia
          -das azenhas recebiam de maquia: 12 816$00:365 dias:          35$10/dia.
                                                                      ______________________
Total de 56$60/dia
 
Para aqueles moleiros que também possuíam engenhos no Tejo:
                    -dos moinhos de rodízio e de roda hidraulica 56$60/dia
-dos engenhos do Tejo 13 212$00:365 dias=36$20/dia
                                                            ________________
                                                                      Total de     92$80/dia
 
Para os moleiros que apenas tinham um moinho de rodízio os seus proventos anuais ilíquidos eram de 21$50, quantitativo este um pouco acima do que auferia um trabalhador rural, cujo salário rondava, em 1950, os 18 escudos.
Acontecia que, geralmente, os moleiros também dispunham de uma roda hidráulica, que, para além de necessitar de menos água para funcionar, dava mais lucro ilíquido ao seu proprietário: 35$10/dia.
 
O que salvava os moleiros da falência era o lucro que obtinham dos cereais que adquiriam e que depois vendiam em farinha aos seus fregueses. Um ano em que conseguiam vender 2000 alqueires de farinha era considerado um bom ano. A maquia, por si só, não bastava para que estes profissionais tivessem uma vida desafogada.
 
Quanto à maquia cobrada há que dizer alguma coisa sobre a maneira como ela se materializava.
 
Antes dos meados do século XX a maquia era realizada com a ajuda de um utensílio denominado maquieeiro, peça de folha, de forma circular, que tinha um cabo para servir de pega. Então, por cada alqueire de cereal, o moleiro enchia dois maquieeiros de cagulo.
 
Depois com a obrigatoriedade do uso de um conjunto de medidas de madeira, todos anos aferidas, de: 10, 5, 1, litros e 250, 200 e 100 dl, começou cobrar a maquia em percentagem. Para facilitar as suas contas mandou fazer o meio alqueire(7litros). Também começou a usar a balança decimal, passando as trocas e maquias a serem feitas a peso.
A maquia foi de 10% até 1957, passando, a parir desta data, para 12%.
 
No que concerne à alimentação, dir-se-á que ela nem sempre era certa e de qualidade. Os moleiros comiam mal e, irregularmente, devido ao modo que vida que eram obrigados a ter: percorrer grandes distâncias, contactar com muitas pessoas, sujeição a determinadas condições naturais( água, vento, ... ), satisfação de certos compromissos, que os levava à pernoita nos engenhos, sem um mínimo de condições. Assim, viam-se obrigados a passar dias sem uma refeição completa e tomada a horas. Era costume os moleiros terem, nas ribeiras, junto dos seus moinhos e azenhas, uma pequena horta que lhe fornecia diversificados produtos que destinavam os seu sustento e da família, que, nem sempre vivia junto do engenho.
 
Embora se tratasse de uma profissão que “enfarinhava” muito a roupa, os moleiros não usavam vestuário diferente em relação à restante população do campo. Quanto muito poderiam usar roupas mais claras, que não se sujavam tanto com farinha. A excepção surgia quando picavam as pedras, vestindo, nessa altura, roupas velhas e rotas, por cima das normais. Protegia, assim, as suas roupas das imensas poeiras resultantes da operação de picagem.
 
Palavras Finais
 
Os moleiros com a sua actividade artesanal, até aos meados do século XX, integravam-se numa comunidade e economia próprias que davam sentido à vida de cada um e de todos.
 
Mas o engenho das minhas recordações, bem como todos os outros a funcionar em Mouriscas e os moleiros com o seu modo de vida típico, realidades bem vivas e com um significado muito próprio no seio da comunidade campesina tradicional mourisquense, começaram a perder as suas funcionalidades após a Segunda Guerra Mundial.
 
Em pouco mais de uma década tudo, ou quase, estava abandonado. Tudo tinha perdido sentido e passado a fazer parte do mundo das recordações.
 
 
Foram muitos os factores interaccionais responsáveis pelo desaparecimento acelerado de moinhos e azenhas e da profissão de moleiro. Recordam-se alguns.
 
A criação na freguesia do ensino secundário/liceal e do ensino destoando à preparação de candidatos a diversos lugares do quadro dos Caminhos de Ferro Portugueses; o êxodo rural e a subida da mão-de-obra agrícola; a estagnação dos preços dos preços dos produtos da terra; a falta de introdução das novas tecnologias ligadas à exploração da terra; o crescente aumento dos vários factores de produção; a diminuição progressiva da cultura de cereais e demais produtos ligados à agricultura e à floresta; o desaparecimento progressivo dos animais de trabalho: bovinos, muares e asininos; o aparecimento de moagens mecânicas com tecnologia mais avançada; o consumo generalizado do pão fabricado em padarias, que passou a chegar, directamente, a casa das famílias.
 
Nas vésperas de Natal de 2006, revisitei ao locais onde, acompanhado de meus Pais Elisa e David e de meu irmão Fernando, assisti, desde criança, ao pisar das uvas e às festas do Natal e da matança do porco e vivi, alguns momentos agradáveis da minha juventude.
 
As imagens que recolhi têm tanto de fantásticas como de desoladores. Pouco a pouco a Natureza vai engolindo a Cultura criada pelo Homem. Do complexo pouco resta de pé. Daqui mais uns anos os vestígios ainda existente desaparecerão para sempre. Restará a memória que ficar registada.
 
Assim chegaram ao fim engenhos motores, assentes em técnicas primitivas do artesanato local, que há muito, tinham substituído a força do braço pela acção das correntes da água e do vento. Excelentes fontes de energia natural que até agora não fomos capazes de aproveitar, para a ajudar a salvaguardar o ameaçado Planeta onde teremos de continuar a viver.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Principais Obras de Referência.
 
 
DIAS, Jorge, 1964, “Moulins Portugais” in Revista de Etnografia, 6, Porto.
GALHANO, Fernando, 1978, Moinhos e Azenhas de Portugal. Lisboa.
OLIVEIRA, Ernesto Veiga, 1967, “Moinhos de Água em Portugal” in Geográfica, 9.
OLIVEIRA, Ernesto Veiga, de, GALHANO Fernando e PEREIRA, Benjamim, 1983, Tecnologia Tradicional Portuguesa- SISTEMAS DE MOAGEM. Lisboa, INIC, Centro de Estudos de Etnologia. p. 520.
 
 
Investigação e texto de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
 
FIM
 
A todos os que leram este trabalho um Bem Haja, dos Autores.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
publicado por casaspretas às 10:26
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