Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(VIII)

 

 
 
PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
(1944-1949)(VIII)
 
 
(CONTINUAÇÃO)
 

 

 
DISTRIBUIÇÃO E TRANSPORTE DO GRÃO/FARINHA
 
 
Com já foi referido anteriormente, cabia, então, especialmente, aos moleiros, quase todos com engenhos próprios, a tarefa de, semanalmente, se deslocarem a casa dos seus fregueses para carregar o os foles ou taleigos/as com o cereal e depois retornarem com a farinha, utilizando para o efeito animais de carga.
 
No princípio do século XX, segundo dados recolhidos, cada um dos moleiros com actividade em Mouriscas, já tinha os seus fregueses, a casa dos quais se deslocava, semanalmente, para carregar os foles ou taleigos/as com o cereal e depois retornarem com a farinha, utilizando para o efeito animais de carga, procedimento que se manteve até à paralisação dos engenhos verificada pelos anos 60 do século passado.
 
Cada moleiro tinha a sua área de influência, que nunca ficava muito afastada dos engenhos e abrangia vários casais contíguos ou não. Dado que aqueles engenhos ficavam situados em locais ermos, distantes alguns quilómetros dos diferentes casais da freguesia, ele procurava, para não perder demasiado tempo no percurso, trabalhar numa área deles o mais próxima possível, podendo até recusar fregueses dispersos de casais distantes.
 
A escolha de um moleiro por parte de cada morador dependia de múltiplos factores: relações familiares, de amizade, de simpatia e das qualidades morais, da seriedade, da boa ou má fama de cada profissional, não pondo de parte o seu próprio interesse.
 
Por tradição, os fregueses mantinham-se fiéis ao seu moleiro, mantendo-se essa fidelidade durante gerações. Contudo, a mudança poderia surgir de ambas as partes: Por um lado, o moleiro deixar de merecer a confiança do freguês por não fornecer uma farinha de qualidade, meter a mão na maquia e deixar de cumprir as datas estipiladas, ... ; por outro o freguês tentar enganar o moleiro, misturando, propositadamente, objectos estranhos no cereal( areia, pedras, ... ), colocar o bom cereal no cimo do fole e por debaixo dele cereal com fundo, joio, ervilhaca, ... , não pagar farinha fornecida, etc. Para além destes poderiam existir motivos de outra natureza que poderia levar à ruptura de confiança entre as partes.
 
De 2ª à 6ª feiras, quer chovesse ou fizesse sol, muitas vezes de manhã e de tarde, cada moleiro ou sua família- esposa e ou filhos solteiros- tinha de cumprir em cada dia o itinerário, previamente, traçado que podia abranger mais de um casal.
 
Recordo-me que, enquanto andei à freguesia, ter fregueses nos Cascalhos, Cumeada, Sentieiras, Fonte Branca, Canhenhos,    , Engarnais Fundeiros, Camarão, Outeirinho, Outeiro Cimeiro, Casal da Milha, Casas Pretas e Casal da Figueira.
 
Chegado a casa de um freguês o moleiro deixava o fole de farinha e carregava outro com cereal. Quando apenas dispunha de um fole, então, despejava a farinha e enchi-o com cereal para moer. Esse intervalo de tempo era aproveitado para um pouco de cavaqueira.
 
As quantidades de cereal, habitualmente milho, mandadas, semanalmente, eram variáveis de freguês para freguês, oscilando entre o meio alqueire(7 litros) e alqueire e meio(21 litros). O trigo só se mandava moer em datas festivas como os Santos Natal, Páscoa, casamentos e baptizados, ..., tempo em que se devia comer o pão alvo, bolos e fritos. Apenas um ou outro agricultor mais abastado consumia pão de trigo no dia-a-dia. Não eram aconselháveis foles com mais de alqueire e meio por serem mais difíceis de manejar, carregar e descarregar das bestas.
 
Os fregueses que não tinham “pão” encomendavam ao moleiro a farinha de que necessitavam em cada semana para a sua família, que na semana seguinte era entregue.
 
Até à década de 40 do século XX o moleiro moía o grão fole a fole, entregando a cada freguês a farinha do seu cereal. Depois daquela data nem sempre assim acontecia, começando a fazer-se a troca do grão por farinha. Só a pedido do freguês assim não se procedia. Este novo procedimento era vantajoso para o moleiro, uma vez que lhe dava menos trabalho, mas nem sempre favorável para o freguês que podia mandar bom cereal e receber farinha de má qualidade.
 
Os moleiros faziam o transporte dos cereais dos fregueses ou dos adquiridos, na freguesia ou fora dela, com muares ou asininos, quer através de cargas no seu dorso, quer com a ajuda de carroças. Contudo, dados os difíceis acessos que levavam aos engenhos, utilizavam-se mais as bestas de carga. Cada uma podia transportar entre 10 e 15 alqueires de “pão”.
 
Cada moleiro dispunha de um ou dois animais de carga. Para que estes animais pudesse transportar a carga sobre o dorso era indispensável uma albarda com os respectivos atafais, sobre a qual se colocava um enxerga de palha e por cima desta um pano de saco ou uma velha manta de trapos, que era segura por um cilha de pano ou couro, som uma fivela numa das pontas, que passava pelo ventre do animal.
 
Em cima da albarda era colocada a carga, cujo o arranjo exigia arte e mestria. O moleiro muitas vezes podia ter de carregar 10 a 12 foles, de alqueire e tinha de ser perito na disposição que tinha de dar aos mesmos para a carga ficasse equilibrada e não dependesse para um dos lados. Com a ajuda de uma corda de sisal( a corda de enquirir/enquerer), com aproximadamente cinco metros de comprido e dois centímetros de grossura(diâmetro), enquiria os foles ou sacos de modo a dispô-los, equilibradamente, de cada lado da albarda, envolvendo-os com a sobrecarga( uma cilha de pano e corda) que também passava pelo ventre o animal, apertada com a ajuda de um arrocho que servia de tarraxa, segurando, deste modo a carga. No tempo de chuva usavam-se encerados destinados as resguardar as cargas, impedindo assim que se molhassem.
 
Em cada dia, no seu giro, o moleiro ou familiar, indo de casa em casa, para percorrer 4 ou 5 quilómetros demorava meio-dia, não considerando o tempo necessário para chegar ao moinho ou azenha.
As coisa tornavam-se mais complicados, no Verão, para os moleiros que tinham azenhas no Tejo, tendo de percorrer distâncias de 10 ou mais quilómetros.
 
Recordo-me das inúmeras e penosas viagens que fiz entre as Casas Pretas, onde o meu pai morava e tinha um depósito de farinha, e a azenha sedeada em Alvega, já atrás referenciada. Para percorrer a distância, de cerca de 15 quilómetros entre os dois lugares demorava cerca de 4 horas, em cada viagem. Os caminhos, com vários níveis de altitude, eram de terra e de pedras soltas, sendo incomodativo o calor e pó.
 
Os caminhos a percorrer, estreitos, que mal davam para passar um carro de bestas, era vias pouco favoráveis ao andamento dos animais, quase sempre carregavam pesadas cargas. No Verão poeirentos e no Inverno lamacentos e com grandes atoleiros.
 
Investigação e texto de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
(CONTINUA)
 
publicado por casaspretas às 10:24
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