Sábado, 4 de Novembro de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(VII)

 

 

PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS

VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO

(1944-1949)(VII)

 
 
(CONTINUAÇÃO)
 
A FARINAÇÃO
 
Depois de verificada a funcionalidade da levada, dos mecanismos dos engenhos, das cambeiras e dos pejadouros que deveria estar colocados de maneira a desviar a água das penas ou copos ou covelos e deitado o cereal nas respectivas moegas, o moleiro, com a ajuda de adufas de madeira, fazia seguir a água da levada para o cubo ou roda e, de imediato, dirigia-se para junto das mós, já preparadas para começar a laborar.
 
No caso concreto, o levantamento do pejadouro não era imediato em virtude do cubo demorar alguns minutos a encher. Só depois de cheio se procedia à operação, isto é, a água começava a bater nas penas do rodízio e a fazê-lo movimentar.
 
Postas em movimento as pedras o moleiro começava por verificar a qualidade da farinha: áspera ou macia. Para o caso do trigo tinha de verificar se o farelo ou muito ou pouco cortado e de seguida, consoante o caso, regular a altura da nadadeira com a ajuda do aliviadouro e a telha da moega com o auxílio do arrojo. Esta operação era feita regularmente de modo a poder corrigir qualquer alteração que, porventura surgisse no sistema.
 
A quantidade de grão transformada em determinada unidade de tempo era variável, dependo de factores como:
 
-potência da força motriz dos engenhos que dependia da época do ano, sua localização e tipos: maior com abundância de água, estar em Ribeiras ou Tejo, serem de rodízio ou de roda hidráulica;
-o diâmetro das mós;
-a dureza e a qualidade dos cereais. Os de maior dureza e com impurezas como joio, ervalhaca, areia ou pedras levavam mais tempo a transformar.
 
Pela minha experiência, diria, que em média, nos moinhos de rodízio um alqueire de milho( 14 litros ou 10,5 quilos) levava 90 minutos a ser transformado em farinha, contra 50 minutos de um alqueire de trigo.
 
Por informação dos moleiros entrevistados, os moinhos de roda hidráulica moíam, no mesmo tempo, o dobro de cereal. Face a tal rendimento justificava-se os maiores custos com a sua instalação, devidos à roda, carretos, entrosgas, ... .
 
Nas azenhas do Tejo e nos moinhos de vento o tempo, para moer um alqueire de milho, diminuía para 15 minutos ou seja eram 6 vezes mais produtivas.
 
Estes dois engenhos deixavam de ser usados com o início da época das chuvas, exigindo, por parte dos moleiros um conjunto de trabalhos a fazer:
 
-nas azenhas do Tejo apenas ficavam o bloco de alvenaria em que assentavam as pedras ou mós e a roda. As restantes partes eram removidas, como a cobertura, a moega, as cambeiras, ... ;
-quanto aos moinhos de vento apenas eram removidas as velas, às vezes os braços, e a cordoaria.
 
 
 
PARAGEM AUTOMÁTICA DOS ENGENHOS
 
 
Sempre que tinha de abandonar, por algum tempo, o local onde se estava a processar a transformação do grão, ou às vezes, durante a noite, o moleiro utilizava um engenhoso sistem,a já anteriormente descrito, que permitia desviar a água das penas do rodízio ou dos covelos da roda hidráulica Bastava para o efeito ligar o pejadouro ao taco que mergulhado na moega, fazia parar automaticamente o mecanismo. Mas uma avaria no rudimentar sistema era bastante para inutilizar as mós, que, por falta de cereal, aumentavam a velocidade e atingiam altas temperaturas que alteravam a sua estrutura.
 
 
A PICAGEM DAS PEDRAS OU MÓS
 
A fricção permanente das pedras com o grão a transformar provocava o alisamento das partes em contacto, facto que dificultava o bom corte e, assim, a diminuição do rendimento produtivo.
 
Para ultrapassar tal situação os moleiros, de acordo com a quantidade, qualidade e natureza do “pão” moído e do tipo de pedra tinham de proceder à sua picagem, de tempos a tempos.
 
A sua experiência dizia-lhe que nas Ribeiras uma alveira, depois de moer 40 a 50 alqueires de trigo, tinha de ser picada. Se tal não acontecesse a farinha, de extrema alvura, sairia com muito farelo, muito dele com farinha incorporada, facto que acarretava prejuízo para os fregueses, que, com menos farinha faziam menos pães.
 
No que concerne as pedras secundeiras elas conseguiam moer entre 80 e 100 alqueires de milho, sem necessidade de picagem.
 
Nas azenhas do Tejo a picagem tinha de ser feita quase todos os dias em virtude da maior quantidade de cereal moído, que rondava os 80 a 100 alqueires por cada 24 horas.
 
A pedra alveira, por ser mais macia e por isso sujeita a maior desgaste, exigia uma picagem mais fina. Daí o tempo de picagem ser maior do que o gasto com as segundas. Poder-se-á afirmar que, em média, a picagem de um casal de pedras exigia cerca de 12 horas de trabalho, que podia variar consoante a prática de quem picava, o diâmetro das pedras e o estado dos picos.
 
Este trabalho era, normalmente, realizado pelos moleiros e seus familiares( esposas e filhos), num total de quatro pessoas- duas para cada pedra-, que usavam, para o efeito, picos em ferro, com pontas de aço e em bico, constituídos por um corpo grosso o modo, de forma prismática, com um olhal no centro, onde era colocado um cabo de madeira. Estes artefactos tinham um comprimento e espessura variáveis, que, geralmente, não ultrapassavam os 20 centímetros de comprimento e 3 centímetros de face, para não pesar muito.
 
A picagem das pedras exigiam várias operações, prévias e posteriores a esta acção, para a realização das quais era necessário o seguinte material: dois malhais, dois rolos de madeira e uma tranca, em madeira, e uma alavanca em ferro.(Fig. X) Eis as principais:
 
 
 

 
                       Fig. X- Objectos para descer e subir a andadeira.
 
 
 
1ª- Começava-se por tirar a moega ou levantá-la para junto do tecto e as cambeiras.
 
2ª- Levantava-se a andadeira com a ajuda da alavanca e debaixo dela punham-se, simetricamente, os dois rolos de madeira de freixo(madeira rija), cada com cerca de 50 cm de comprido, por 8 cm. de diâmetro, um de cada lado da sobrelha, a meio da distância entre o extremo da pedra e o olho, sendo colocado em primeiro lugar o da frente.
 
3ª- Utilizava-se a tranca, também em freixo, com cerca de 1,10 cm. de comprimento e 12 cm. de diâmetro, que numa das extremidades tinha um chanfro abaulado, que era colocada no olho da pedra andadeira.
 
4ª- Depois de colocados no sobrado e em frente do casal de mós, os dois malhais, fixos ou não, a uma distância de 20 a 30 cm. A mó móvel era então deslocada, com a ajuda dos rolos e da força humana até que o dito chanfro encaixasse no rolo do lado do chão. Então a dita mó descaía com a ajuda da tranca e assentava nos malhais.
 
5ª- Posta em cima dos malhais, a mó era colocada em posição vertical, ou pouco inclinada para trás, posição possível, devido a sacos e foles que a mantinham em tal posição.
 
6ª-Nesta posição procedia-se à picagem das duas mós- fixa e andadeira- de modo a fazer desaparecer as superfícies lisas e torná-las ásperas, isto é, com pequenas saliências para melhorem triturar os grãos.
 
As pessoas encarregadas da picagem trabalhavam sentadas e usavam óculos de vidro, tipo máscara, para evitar de pedaços de pedra ou de aço saltassem para os olhos. À medida que o trabalho ia progredindo era necessário varrer, com uma vassoura de palma, as partículas de pedra destacadas pelos picos, para assim poder-se distinguir-se a parte picada da não picada, dado que tais partículas tudo encobriam.
 
Para a realização das picagem aproveitavam-se os fins de semana ou feriados, dias em que os moleiros ou seus familiares não iam à freguesia.
 
Os picos no fim de cada operação ficavam com os bicos rombos e por isso era necessário levá-los ao ferreiro, que através de uma têmpera especial, os voltava a aguçar adequadamente. Ao fim de muitas destas operações os picos, que iam diminuindo de tamanho em cada uma delas, tornavam-se inúteis para a sua verdadeira função.
 
Após a conclusão da picagem tornava-se repetir as operações acima referidas, mas desta vez, de modo inverso: colocação dos rolos, um na extremidade mais próxima dos malhais e ou outro encostado para além da sobrelha; depois encostava-se a andadeira ao rebordo da pedra fixa e de seguida encaixava-se a extremidade chanfrada da tranca no primeiro rolo e com a ajuda daquela levantava-se de modo a rolar sobre os dois rolos.
 
Logo que a dita pedra estivesse em posição de encaixar na sobrelha, colocava-se uma cunha de madeira no primeiro rolo(do lado de fora) e com a ajuda da alavanca retirava-se o rolo do lado de dentro, primeiro, e depois o outro. Por último, centrava-se e nivelava-se a andadeira com o auxílio da alavanca. O moleiro por tentativas conseguia estabelecer o equilíbrio que permitia que a pedra não se desgastasse de forma desigual. Uma vez conseguido colocava tacos de madeira rija entre a sobrelha e o outro lado do olhal, fixando-a. Colocava depois as cambeiras e farinha entra elas e por fim punha a moega no seu lugar.
 
A primeira farinha obtida após a picagem. Por conter areia, era áspera e de má qualidade. Por isso o moleiro utilizava um ou dois litros de cereais seus, aproveitando essa farinha para alimentação dos animais.
 
 
Investigação e texto de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
 
(CONTINUA)
 

publicado por casaspretas às 16:52
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