Segunda-feira, 25 de Setembro de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(VI)

 
PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
(1944-1949)(VI)
 
(CONTINUAÇÃO)
 
 
PREPARAÇÃO E FUNCIONAMENTO TEMPORAL DOS ENGENHOS
 
As duas Ribeiras: Arcês e do Rio Frio, onde estavam instalados os engenhos dos moleiros de Mouriscas, tinham um caudal de água que permitia o seu funcionamento durante quase todo o ano, embora no pino do Verão, o não fizessem diariamente. Tal poderia acontecer sempre que os açudes e as levadas não tivessem fugas de água.
 
De realçar que a roda vertical, que exige menos água para o funcionamento do engenho, terá surgido, em Mouriscas, na segunda década do passado.
 
Mas o normal funcionamento dos engenhos, que dependia, essencialmente, da regularidade das chuvas caídas durante o ano, verificava-se entre Novembro e Abril de cada ano, período em que, nos meados do século XX, se podia farinar 24 horas por dia, se houvesse pão para isso, ressalvados os tempos da picagem das pedras ou de uma ou outra avaria.
 
Quando havia água suficiente na Ribeira a levada tinha a capacidade para transportar água para vários engenhos. No caso presente, podiam funcionar, simultaneamente, três rodízios e uma roda de lagar de azeite, propriedade de três pessoas diferentes.
 
Era vulgar na freguesia de Mouriscas construir-se junto a um moinho de rodízio, um lagar de azeite. Este procedimento tornava o empreendimento mais barato, uma vez serem comuns: o açude a levada e o caminho que acompanhava a levada em todo o seu percurso.
 
Havia anos que as chuvas começavam em Setembro, o que permitia começar a laborar em Outubro. Em anos de pouca chuva em Abril as Ribeiras iam secas.
 
Depois de Maio os moleiros começavam a preparar as azenhas sediadas no Tejo e os moinhos de vento, dado que era nesta altura do ano que, por um lado, as águas do rio deixavam as pedras de moer a descoberto e permitia a construção de novos diques e a instalação provisória de uma casota de madeira, coberta a palha ou zinco, e por outro, e o vento passava a ter maior regularidade.
 
O meu avô José Lopes Mestre tinha uma azenha no lugar do Cachão, perto dos Cascalhos, da freguesia de Mouriscas e dois moinhos de vento, um no lagar de Sentieras, junto ao Tejo, herdado de seu pai Manuel Lopes Mestre, e o outro, na Atalaia, instalado num morro que fica entre o Pombo e a Balsa, que era do seu irmão Feliciano Mestre. Mais tarde passou para o moleiro Francisco da Ponte.
 
Tenho deste último moinho gratas recordações. A sua excelente visibilidade, do lugar das Casas Pretas, onde nasci e cresci, permitia, todos anos esperar, com alguma ansiedade, o início da montagem e desmontagem do velame, que tinha lugar, em Junho e Setembro, respectivamente.
 
O meu pai David era proprietário de uma outra azenha, instalada no Tejo, no lugar de Lezírias, da freguesia de Alvega, em frente da povoação de Ortiga. O grão e a farinha eram transportados de barco movido com a ajuda de uma vara, que, da margem direita do Tejo, se deslocava até ao engenho e vice-versa. Pelo menos durante dois Verões, o jovem aprendiz de moleiro, que, hoje, vos escreve estas memórias, acompanhado de um macho carregado de milho/ farinha, percorria, durante cerca de três horas, o longo caminho que separava as Casas Pretas, local do depósito de farinha e a Ortiga.
 
Os processos motores das azenhas do Tejo e dos moinhos de vento, tal como os dos moinhos de roda hidráulica das ribeiras, eram de grande complexidade, visto haver necessidade de transformar o movimento vertical da roda ou moinho em movimento de rotação horizontal. Pelo facto de existirem carretos e entrosgas, feitas em madeira, as avarias eram muito mais frequentes do que nos engenhos de rodízio. Devido à grande potência da força motriz, bastava partir-se um dente, para que toda a entrosga ficasse desfeita. Daí a necessidade de uma apertada vigilância do moleiro no funcionamento do engenho e na regulação da telha da moega.
 
A farinha de milho proveniente destes engenhos era sempre grosseira e áspera, em virtude de o grão ficar menos triturado. Isto acontecia por razões de natureza técnica: o moleiro para que a farinha se agarrasse às pedras, devido ao aquecimento excessivo, levantava um pouco a pedra andadeira.
 
 
Investigação e texto de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
 
(CONTINUA)
 
 

 

publicado por casaspretas às 19:01
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