Terça-feira, 11 de Julho de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(IV)

PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
(1944-1949)(IV)
 
(CONTINUAÇÃO)
CABOUCOS OU INFERNOS: APARELHO MOTOR


Os caboucos do moinho de rodízio de José Lopes Mestre que vêm sendo analisados encontravam-se ligeiramente acima do leito da Ribeira, sob o sobrado, para que o funcionamento dos rodízios não fosse prejudicado durante as cheias da mesma.

A entrada para estes espaços, destinados à instalação e funcionamento das partes motoras dos engenhos, fazia-se por estreitas entradas, por onde mal passava uma pessoa de pé.

Como já foi atrás realçado era nos caboucos que estavam montados os rodízios.
 
  
 
 

 
        Fig. VI.-Rodízio e seus componentes e grama
        Crédito: Carlos Bento, 1980.
 
Os rodízios, fabricados em ferro, eram constituídos por uma roda horizontal, com 1,30 de diâmetro e 32 penas (nº6, Fig. VI), cada uma a largura de c. 20 centímetros. No passado as penas eram de madeira;
 
Com ajuda de uma cruzeta(nº 4, ... ) ligavam-se a um veio ou eixo(nº 5), vertical, de secção redonda, com 3 metros de comprimento, feito de ferro( no passado em madeira) que ia encaixar na cruzeta do rodízio; A sua extremidade inferior terminava num aguilhão ou espigão;
 
Este espigão assentava e rolava sobre uma rela de pedra(seixo rolado)(nº2)) que estava embutida num barrote de madeira, horizontal, com cerca de 2 metros de comprimento, denominado ponte ou grama(nº1, ... ). Esta grama estava bem fixa num dos lados com a ajuda de pedras e no outro podiam ter lugar alguns pequenos deslocamentos verticais com a ajuda do aliviadouro(nº3, ... ), que consistia numa haste de ferro, encimada por um parafuso ou agulha, que estava no sobrado, junto às mós e permitia aumentar ou diminuir a distância entre a mó fixa e a mó nadadeira e assim produzir farinha mais fina ou grossa.
 
O referido veio, depois de atravessar o orifício da bucha de madeira- que servia não só de chumaceira do mesmo como também impedia o grão do cereal de cair no olho do pouso- terminava na sobrelha, sobre a qual assentava a pedra andadeira.
 
Encontramos ainda nos caboucos o pejadouro que servia para desviar dos rodízios a água proveniente da seteira. Tratava-se de uma tábua ligada ao cubo, situada no prolongamento e em frente da seteira, que subia ou descia, e era comandado do sobrado, utilizando-se sempre que era necessário parar o sistema motor do engenho. Do seu funcionamento dar-se-á conta mais adiante.
 
SOBRADO: MÓS OU PEDRAS
 
No nível superior do sobrado, com excepção da agulha, e a cerca de 60 centímetros do soalho, estavam instaladas três casais de mós, localmente, designadas por “pedras”: duas secundeiras e uma alveira.

        Fig. VII- Uma andadeira com cinta
        Crédito: Carlos Bento. 1980

Cada casal era constituído; pela pedra inferior, fixa, denominada pouso, assente e guarnecida, em alvenaria, pelo que, com excepção da parte voltada para o soalho em que se pode observar toda a sua altura, apenas alguns centímetros, da parte superior a do lado de cima, eram visíveis; e pela pedra superior, designada, por andadeira ou corredoura que apresentava, na sua face inferior um entalhe, de cada lado do olho, com cerca de 18 cm, designado por segurelhal onde encaixava a sobrelha já atrás identificada. As dimensões das mós eram: 1,10 metros de diâmetro e 30 centímetros de altura.
As mós possuíam características diferenciadas consoante o tipo de grão a transformar. Enquanto que as destinadas a moer milho, cevada, chícharos, centeio, ... - as de 2ª ou secundeiras- eram de granito e adquiridas na região Poiares, as alveiras, para trigo, eram de calcário e compradas nas terras de Condeixa
A andadeira para moer trigo tinha a particularidade de ter uma série de sulcos ou girões que permitiam a acelerar a moagem e evitar o seu excessivo aquecimento.
Devido ao contínuo desgaste provocado pelo funcionamento e picagem e consequente diminuição de volume e de peso e de modo a aumentar o seu rendimento, a andadeira era recoberta com uma camada de argamassa de cimento.
Muitas vezes, para consolidar a sua estrutura evitar a sua fractura, especialmente a alveira, a andadeira levava uma cinta de ferro.(Ver Fig. VII).
Do lado exterior da andadeira e a cerca de 5 cm. dela, colocavam-se as cambeiras constituídas por uma chapa metálica, móvel, circular, com a altura de 50 centímetros. Tinham por função evitar que a farinha de dispersasse e que a farinha fosse cair no sobrado, num espaço protegido por um pano ou panal.
Para além das cambeiras faziam ainda parte do complexo de farinação, a moega. Trata-se de uma caixa de madeira de pinho, com a forma de pirâmide invertida, com uma largura, na parte mais larga, de 60 cm. e na parte inferior de 10 cm. e uma altura de 70 cm. .
A moega que podia levar 80 quilos de cereal, encontrava-se suspensa e liga ao forro do telhado por arames.
Na sua parte inferior estava ligada à telha do grão. Uma calha alongada feita de cortiça ou madeira, com 14X6 cm, amarrada à moega e ao arrojo, por meio de fios de corda.
O arrojo era um pau de madeira que atravessava a moega e em volta do qual estava ligado um cordel. A sua principal função era a de regular, consoante a maior ou menor inclinação da telha, a quantidade de grão que deveria entrar no “olho da pedra”.
Há ainda que referenciar mais dois elemento da moega: o cadelo e o chocalho. O primeiro é formado por um pau e uma roda, usualmente de cortiça, de 25 cm. de comprimento, que está ligado à telha do grão e é responsável pela sua trepidação e pelo cair do grão no olho das mó. O segundo é constituído por um pedaço de ferro ligado à ponta de uma arame, que no cimo da moega funciona como alavanca e que continua para o seu interior amarrado a um taco de madeira que fica, quase no fundo daquela, no interior do grão. Tem por missão avisar o moleiro que o grão na moega está a acabar. Sempre que tal acontece o peso do ferro faz levantar o taco e fá-lo cair sobre a nadadeira, avisando, com o barulho que faz, o moleiro.
Ligado a este processo encontra-se, ainda, um outro, que permite parar, automaticamente, o engenho sempre que a moega está a ficar vazia. Aqui o taco está ligado ao pejadouro através de uma espécie de armadilha.
E por fim há que referir o aliviadouro, já atrás referenciado, situado ao lado de cada par de mós, que ajudava a controlar a textura da farinha: mais fina ou mais áspera.


ENGENHO DO LUGAR DE ESCORREGA. RIBEIRA DE ARCÊS

O segundo engenho a ser estudado situava-se no lugar de Escorrega, na margem esquerda da Ribeira da Arcês e era pertença da família dos Tojais. Construído em 1920, conjuntamente com um lagar de azeite, tinha dois caboucos ou infernos onde se encontravam as partes motoras.



                                Fig. VIII- Lugar de Escorrega
                                Crédito: Carlos Bento. 1980.

Num deles funcionou, durante muitos anos um rodízio , com 1,30 de diâmetro, com 28 penas de ferro. A estrutura e funcionamento eram idêntico ao descrito anteriormente.
No outro cabouco encontrava-se instalado o aparelho motor da roda vertical, de propulsão superior(Fig. IX).



                                     Fig. IX- Roda hidráulica no engenho do lugar de Escorrega
                                     Crédito: Carlos Bento. 1980

O eixo desta roda, que funcionava no exterior do edifício é horizontal e entra no interior da azenha, através de uma abertura quadrada, e aí leva uma entrosga- roda de coroa- ou seja uma roda vertical, de ferro mais pequena provida numa das suas faces de 76 dentes. Estes vão engrenar nos 18 fuselos de um pequeno carreto, cujo eixo vertical é encimado pela mó andadeira.




                             Fig. X. Entrosga e carreto assente na ponte ou grama.
                             Crédito: Carlos Bento. 1980

A roda em análise, toda ela de metal, tinha três metros de diâmetro e dois aros onde estavam inseridos 36 copos ou “covelos”, cada um com 35 centímetros de largura.
Neste engenho, a água que vem da levada e encaminhada por uma calha de madeira ou alvenaria, colocada a um nível superior ao da altura da roda,(Fig. XI) que ultrapassa o seu ponto mais alto, caindo nos copos, faz mover a roda.



                              Fig. XI- Roda hidráulica com pejadouro não activado.
                             Crédito: Carlos Bento. 1980

Uma mesma roda podia accionar dois pares de mós, bastando para tal acrescentar o seu eixo e aí montar uma segunda entrosga.
 
 
Investigação e texto de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
 
(CONTINUA)
 
 

 
publicado por casaspretas às 16:59
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