Domingo, 25 de Junho de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(III)

PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
(1944-1949)
 
(CONTINUAÇÃO)
 
EDIFÍCIOS DO LUGAR DA AZENHA DO LAGAR
 
 

 
 
Fig. II- Vários edifícios do lugar da Azenha do Lagar
Crédito. Carlos Bento, 1980.
 
Com base na Fig. II, farei de seguida a identificação do complexo de edifícios, sitos na Ribeira do Rio Frio, aliás, os últimos antes de se atingir o rio Tejo, e a sua funcionalidade. De cima para baixo, temos no primeiro plano um palheiro(nº 7) que pertencia a Francisco Domingos.
 
Do seu lado direito e do lado baixo, visualiza-se o caminho(nº 8) que se bifurcava, seguindo um para lagar de moer azeitona, de Francisco Domingos, de que se vê uma pequena parte(nº6). O outro, passava em frente da moradia de José Lopes Mestre e seguia em direcção à Ribeira.
 
Ainda no 1º plano, em cima, vemos a dita residência(nº 1), com uma porta e duas janelas. Tinha uma sala de fora e dois quatros. Do seu lado esquerdo existia a casa da farinha, com um sótão. Em toda frente uma varanda, que no seu topo norte dava acesso ao lagar de pisar uvas. Nas grandes cheias do Tejo as águas chegavam à soleira de acesso àquela varanda.
 
No outro topo da varanda, em plano mais baixo vêem-se dependências pertencentes a Joaquim Moleiro, a que se segue a residência e casa das mós da sua “azenha”(nº 5).
 
Em frente das casas do meu avô e do outro lado do caminho, tínhamos várias dependências(nº 2): do lado direito um palheiro onde se guardavam as bestas e a sua alimentação e do lado esquerdo a loja da casa que tinha grandes potes de barro e um alambique para o fabrico de aguardente, que dava acesso à cozinha, ao forno, ao curral das cabras e ovelhas e à cerca do porco, do lado esquerdo.
 
Do lado de baixo vemos um edifício com telhados desencontrados(nº 3). O de cima com uma chaminé grande destinava-se à cozinha, sala de jantar e de estar. No debaixo, com o telhado inclinado para a Ribeira, funcionava o engenho de farinar cereais.
 
Este era constituído por um primeiro sobrado que servia para guardar os cereais, foles, farinha, balança, crivos e outros utensílios da arte, no fundo do qual estava um pequeno quarto com uma cama que servia para o moleiro descansar.
 
Num segundo patamar, mais em baixo, estavam outro sobrado de madeira e um pouco elevadas dele, três pares de mós, a que corresponde as três janelas do dito edifício(nº 3), que confinava com a Ribeira. Por debaixo do sobrados tínhamos os caboucos ou infernos.
 
Do lado direito deste edifício vê-se o local onde este esteve montada uma roda hidráulica(nº 4), instalada depois de 1950.
 
 
AÇUDE, LEVADA OU VALA E SISTEMA MOTOR
 
 
A cerca de 200 metros a jusante do engenho de Manuel Baptista Santa existia um açude, com cerca de 25 metros de largura e 4 metros de altura. Tratava-se de uma larga parede, com uma leve inclinação para montante, feita de pedra seca. Para além de permitir o seu armazenamento, tinha por finalidade represar e elevar o nível da águas da Ribeira, de modo a que atingissem, através da levada, os sistemas hidráulicos de moagem a accionar. Este açude já existia em 1923.
 
 

     Fig. III- Açude com abundância de água
Crédito: Fernando Bento
 
A levada ou vala, construída em alvenaria, acompanhando a forma do relevo do terreno, tinha uma extensão que rondava os 500 metros e 0,70 de largo por 0,90 de altura.
 
A entrada de água na levada era regulada, logo no seu início, por uma adufa ou comporta que apenas permitia a circulação do líquido necessário, que podia, quando necessário, ser fechada. Logo a seguir existia uma outra, o “ladrão”, com a mesma finalidade, que encaminhava a água para a Ribeira. Tinha grande utilidade sempre que havia grandes cheias na Ribeira, evitando que a água extravasasse da levada.
 
 
 
 
 
                               Fig. IV- Levada com ladrão
                                Crédito: Fernando Bento
 
                                   
Ao longo desta levada encontravam-se, na parede exterior, algumas pequenas aberturas que serviam para deixar passar a água necessária à rega das hortas e plantas, existentes entre a mesma levada e a Ribeira. Eram fechadas quando cumprida a sua missão. O acesso ao açude e hortas era feito sobre a mesma parede, normalmente, lajeada no topo.
 
Esta levada, que fornecia água para accionar os rodízios dos engenhos de Joaquim Moleiro e José Lopes Mestre e a roda do lagar de Francisco Domingos, dividia-se em duas, a partir da “azenha” do primeiro, construídas lado a lado(nº 9), levando a do lado norte água para o dito lagar e a outra que, com a ajuda de adufas, era encaminhada para os rodízios do moinho de José Lopes Mestre, que estamos a examinar. Caso contrário, tinha como destino a Ribeira.
 
Este moinho tinha dois caboucos ou infernos, espaço onde funcionavam as partes motoras e por isso duas entradas diferenciadas de água que iam accionar dois rodízios, cada uma delas com um crivo ou grade de varas destinado a impedir a entrada de objectos estranhos, como paus, pedaços de madeira, folhagem, ... .
 
No cabouco mais antigo, a água entrava no cubo ou cuvo, de grande inclinação, de forma cilíndrica e construído em alvenaria, e saía junto e logo acima do rodízio por uma boca apertada e de secção quadrada- a biqueira ou seteira- que no caso presente era de cimento. A água sob pressão batia nas penas metálicas do rodízio fazendo-o movimentar bem como o casal de pedras secundeiras, ligadas ao seu eixo. Do edifício( nº3) referenciado correspondem à janela da esquerda.
 

 
Fig. V. Cubo com duas biqueiras
 
No outro cabouco, encontramos uma estrutura diferente. O cubo tinha uma forma de cone invertido, que permitia um maior volume de água e apresentava duas biqueiras, cada uma delas apontada para um rodízio próprio.(Fig. V) Um estava ligado a um casal de pedras secundeiras. Do edifício( nº3) referenciado correspondem à janela do meio. O outro a um casal de pedras alveiras. Do edifício( nº3) referenciado correspondem à janela da direita.
 
Raramente estavam abertas as duas biqueiras e funcionavam, simultaneamente, os dois rodízios. O seu encerramento ou maior/menor abertura era feito com a ajuda de uma palmeta de madeira.
 
 
Investigação e texto de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
(CONTINUA)
 
publicado por casaspretas às 09:52
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