Terça-feira, 2 de Maio de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(I)

 
PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
Da sociedade tradicional, predominantemente agrícola, em que nasci, cresci e aprendi a ser homem, pouco ou nada resta. Muitos dos seus usos e costumes, artes e ofícios, saberes de experiência feita de símbolos, perderam significado e sentido e apenas são conhecidos e postos em prática por mourisquenses já no entardecer da vida.
 
Toda essa cultura, material e simbólica, faz parte da memória da freguesia e para que Mouriscas não perca a sua identidade torna-se necessário concretizar, quanto antes, o seu levantamento e registo, sob pena de se perder para sempre. Quem ainda a conhece, a aprendeu, a viveu e a pôs em prática, encontra-se neste momento da última etapa do seu ciclo de vida. Com a sua saída do mundo dos vivos perderemos um saber-fazer acumulado aprendido ao longo da vida, já de si, resultado de uma experiência milenária com raízes na Idade da Pedra Polida.
 
O Homem do Neolítico, com descoberta da agricultura, a domesticação de alguns animais e a sedentarização, verificadas há cerca de 10 000 anos, viria a construir as bases culturais da nossa sociedade rural tradicional, que, com algumas alterações, conseguiria sobreviver até aos meados do século XX.
 
Com a chamada Revolução Verde, que originaria a primeira grande mudança na estrutura sócio-cultural da Humanidade, alguns seres humanos passaram a dispor, regularmente, de mais e melhores alimentos- cereais, legumes, fruta, carne, leite, queijo- e de excedentes que lhes permitiriam ultrapassar os períodos de escassez e alimentar mais gente, incluindo, grupo de pessoas não ligadas a actividades agrícolas.
 
Na posse de cereais como o trigo, o milho, o centeio, a cevada, ... , o Homem teve de descobrir e inventar processos que permitissem uma utilização, eficaz e eficiente, na sua alimentação. Um deles seria o consumo dos cereais sob a forma de pão.
 
Para que tal acontecesse, teve de inovar e de ser capaz de transformar os grãos em farinha. Sabe-se que numa primeira fase utilizou rudimentares engenhos de triturar, accionados com a ajuda da energia muscular humana: trituradores, de vai-vém e de pancada, mós planas, rebolos, almofarizes, pilões e mós rotativas. Usou, depois, as atafonas accionadas por animais de tiro. E, mais tardiamente, a partir da Idade dos Metais, com um significativo aumento da produção cerealífera, como resultado da inovação e aperfeiçoamento das técnicas agrícolas, apareceriam os moinhos de água- moinhos de rodízio e azenhas- e os moinhos de vento, engenhos estes movidos com a ajuda de energia natural: água e vento, que, através de difusão cultural chegariam a Portugal e seriam disseminados por todo o território nacional.
 
A freguesia de Mouriscas, sita no médio Tejo e no alto Ribatejo, embora não disponha dos solos mais aconselháveis para a sua cultura, teve nos cereais- milho, trigo, centeio e aveia- uma das suas produções básicas. E dada a importância do pão(de milho) na alimentação diária das famílias, uma riqueza essencial na sua sobrevivência.
 
Factores geográficos, como a situação entre duas ribeiras, o rio Tejo como limite sul e solos muito movimentados, favoreceram e permitiram a instalação de moinhos de água e de vento, que ainda laboravam por volta de 1950. Foram estes engenhos, instalados nas margens das Ribeiras de Arcês(esquerda) e Rio Frio(direita), cerca de dezena e meia, no rio Tejo, três ou quatro, e nalguns morros altos da freguesia(moinhos de vento), pouco mais de uma dúzia, que serviram para moer os supra referidos cereais, cuja farinha, depois de transformada em pão, alimentou muitas gerações de mourisquenses.
 
Cabia, então, especialmente aos moleiros, quase todos com engenhos próprios, a tarefa de, semanalmente, se deslocarem a casa dos seus fregueses para carregar o os foles ou taleigos/as com o cereal e depois retornarem com a farinha, utilizando para o efeito animais de carga.
 
Muitos desses moinhos e azenhas ainda fazem parte do meu imaginário de criança, ainda bem vivo na minha memória, não só pelo facto de ter familiares paternos na arte(pai do pai e pai) como também a ter praticado, como ajudante, durante a minha juventude, entre 1944( ano em que fiz a 4ª classe) e 1949(ano em que completei o 2º ano dos liceus).
 
Será esse património artesanal de Mouriscas, freguesia que me viu nascer e me ensinou a crescer com humanidade, essa arquitectura rural contemporânea, actualmente, abandonada e em vias de desaparecimento, que servirá de base ao texto que se segue, e será apresentado, neste Blogue, por partes.
 
Darei, neste trabalho, de natureza etnográfica e histórica, maior relevo aos engenhos de farinação que foram propriedade dos meus familiares e onde passei alguns anos da minha juventude e aprendi a fazer fazendo: a “azenha”do rio Frio.
 
Investigação de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
Texto de Carlos Bento.
(CONTINUA)
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publicado por casaspretas às 16:59
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