Quarta-feira, 3 de Janeiro de 2007

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(IX)

 

PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
(1944-1949)(IX)
 
 
(CONTINUAÇÃO)
 
 
ESTILO DE VIDA DOS MOLEIROS
 
 
Os moleiros, com um trabalho, que, embora pesado e penoso, não conheciam o descanso, consideravam-se livres e independentes de qualquer vínculo de submissão a quem quer que fosse.
 
A maior parte deles possuía engenhos próprios, construídos por si ou herdados de familiares. Poucos eram os que trabalhavam em estabelecimentos arrendados.
 
Na sua labuta do dia-a-dia os moleiros recebiam uma preciosa ajuda da família, muitas vezes, numerosa.
 
A esposa, também moleira, participava, activamente, com o marido, nas diferentes tarefas necessárias ao desempenho da profissão, que iam desde a moagem até ir à freguesia. Raramente o casal contratava assalariados, por não necessitarem de o fazer ou por ter receio de serem, por eles, enganados.
 
Os filhos mais velhos, enquanto não tivessem ocupação própria, ajudavam os pais na picagem das pedras, iam à freguesia, ... .
 
A vida que levavam caracterizada por um trabalho permanente, apesar de não os tornar pessoas ricas, fazia dos moleiros cidadãos remediados, com vantagens em relação a outras profissões que nem sempre tinham garantido trabalho anual permanente.
 
Os rendimentos líquidos que recebiam, anualmente, pelo seu trabalho não são fáceis de calcular, dado que os moleiros não possuíam contabilidade organizada. Eles dependiam de múltiplos factores a saber: quantidades de cereais transformado; localização dos engenhos, número de fregueses com e sem cereal próprio; número de animais utilizados na profissão, das condições climáticas, ... .
 
As receitas provinham não só da maquia que cobravam pela transformação dos cereais dos fregueses, que oscilava entre os 10 e 15%, como também do cereal que compravam e depois vendiam, após a sua transformação. Aqui o lucro não poderia exceder os 15%.
 
Quanto às despesas havia a considerar: A contribuição industrial (500$00/ano); Taxa a pagar à Comissão Reguladora da Moagem de Ramas(480$00/ano, em 1943), sustento dos animais: palha, feno, bandeiras de milho, rações de milho, favas; ferragem( 4 ferraduras por animal); tosquia anual dos animais; aquisição e conserto de carroças, de albardas, de cordas de enquerir, sobrecargas e cabretos, de sacaria, de pás de madeira e corredores e de picos; iluminação: azeite e petróleo. Nas azenhas de roda hidráulica havia despesas constantes com dentes da entrosga e de “fúseis” que, por serem de madeira partiam com facilidade.
 
Embora não possuíssem contabilidade, será possível, de uma forma aligeirada, calcular o rendimento ilíquido de um moleiro que trabalhasse nove meses numa ribeira e três no Tejo.
 
Segundo os dados fornecidos pelos nossos informadores, um moleiro poderia moer, em 1950 :
 
MILHO
 
Em engenho de rodízio: 180 diasx14 alqueires=2520 alquires
                                        90 diasx5 Alqueires=0450 alqueires
                                                            -------------------------------
                    SOMA=2970x12%=356 alqueiresx18$00=6 408$00
 
Em engenho de roda hidráulica: 2970x2=5940 alq.x12%=712 alqueiresx18$00/alq.=12 816$00
 
Com engenho no Tejo 45 diasx96 alq/dia=4320
                                   45 diasx40 alq/dia=1800.alq.
-                             ______________________________
                                        SOMA=6120 alq.x12%=734 alq.x18$00=13 212$00
 
 
TRIGO
 
Em engenho de rodízio:180 diasx3 alq/dia=540 alq.x12%=64,8 alqueiresx22$00/alq.=1 425$60
 
Como a maioria dos moleiros de Mouriscas não dispunha de azenha nas ribeiras nem no Tejo, o seu rendimento anual era variável:
 
Para os que somente tinham moinho de rodízio:
 
          -do milho moído recebiam de maquia: 6 408$00
          -do trigo moído recebiam de maquia:    1 425$60
                                                  _____________    
                                                  Total de      7 833$60:365 dias=21$50/dia
 
Para aqueles que possuíam moinho de rodízio e azenha(roda hidráulica:
 
          -dos moinhos de rodízio do milho e trigo recebiam de maquia: 21$50/dia
          -das azenhas recebiam de maquia: 12 816$00:365 dias:          35$10/dia.
                                                                      ______________________
Total de 56$60/dia
 
Para aqueles moleiros que também possuíam engenhos no Tejo:
                    -dos moinhos de rodízio e de roda hidraulica 56$60/dia
-dos engenhos do Tejo 13 212$00:365 dias=36$20/dia
                                                            ________________
                                                                      Total de     92$80/dia
 
Para os moleiros que apenas tinham um moinho de rodízio os seus proventos anuais ilíquidos eram de 21$50, quantitativo este um pouco acima do que auferia um trabalhador rural, cujo salário rondava, em 1950, os 18 escudos.
Acontecia que, geralmente, os moleiros também dispunham de uma roda hidráulica, que, para além de necessitar de menos água para funcionar, dava mais lucro ilíquido ao seu proprietário: 35$10/dia.
 
O que salvava os moleiros da falência era o lucro que obtinham dos cereais que adquiriam e que depois vendiam em farinha aos seus fregueses. Um ano em que conseguiam vender 2000 alqueires de farinha era considerado um bom ano. A maquia, por si só, não bastava para que estes profissionais tivessem uma vida desafogada.
 
Quanto à maquia cobrada há que dizer alguma coisa sobre a maneira como ela se materializava.
 
Antes dos meados do século XX a maquia era realizada com a ajuda de um utensílio denominado maquieeiro, peça de folha, de forma circular, que tinha um cabo para servir de pega. Então, por cada alqueire de cereal, o moleiro enchia dois maquieeiros de cagulo.
 
Depois com a obrigatoriedade do uso de um conjunto de medidas de madeira, todos anos aferidas, de: 10, 5, 1, litros e 250, 200 e 100 dl, começou cobrar a maquia em percentagem. Para facilitar as suas contas mandou fazer o meio alqueire(7litros). Também começou a usar a balança decimal, passando as trocas e maquias a serem feitas a peso.
A maquia foi de 10% até 1957, passando, a parir desta data, para 12%.
 
No que concerne à alimentação, dir-se-á que ela nem sempre era certa e de qualidade. Os moleiros comiam mal e, irregularmente, devido ao modo que vida que eram obrigados a ter: percorrer grandes distâncias, contactar com muitas pessoas, sujeição a determinadas condições naturais( água, vento, ... ), satisfação de certos compromissos, que os levava à pernoita nos engenhos, sem um mínimo de condições. Assim, viam-se obrigados a passar dias sem uma refeição completa e tomada a horas. Era costume os moleiros terem, nas ribeiras, junto dos seus moinhos e azenhas, uma pequena horta que lhe fornecia diversificados produtos que destinavam os seu sustento e da família, que, nem sempre vivia junto do engenho.
 
Embora se tratasse de uma profissão que “enfarinhava” muito a roupa, os moleiros não usavam vestuário diferente em relação à restante população do campo. Quanto muito poderiam usar roupas mais claras, que não se sujavam tanto com farinha. A excepção surgia quando picavam as pedras, vestindo, nessa altura, roupas velhas e rotas, por cima das normais. Protegia, assim, as suas roupas das imensas poeiras resultantes da operação de picagem.
 
Palavras Finais
 
Os moleiros com a sua actividade artesanal, até aos meados do século XX, integravam-se numa comunidade e economia próprias que davam sentido à vida de cada um e de todos.
 
Mas o engenho das minhas recordações, bem como todos os outros a funcionar em Mouriscas e os moleiros com o seu modo de vida típico, realidades bem vivas e com um significado muito próprio no seio da comunidade campesina tradicional mourisquense, começaram a perder as suas funcionalidades após a Segunda Guerra Mundial.
 
Em pouco mais de uma década tudo, ou quase, estava abandonado. Tudo tinha perdido sentido e passado a fazer parte do mundo das recordações.
 
 
Foram muitos os factores interaccionais responsáveis pelo desaparecimento acelerado de moinhos e azenhas e da profissão de moleiro. Recordam-se alguns.
 
A criação na freguesia do ensino secundário/liceal e do ensino destoando à preparação de candidatos a diversos lugares do quadro dos Caminhos de Ferro Portugueses; o êxodo rural e a subida da mão-de-obra agrícola; a estagnação dos preços dos preços dos produtos da terra; a falta de introdução das novas tecnologias ligadas à exploração da terra; o crescente aumento dos vários factores de produção; a diminuição progressiva da cultura de cereais e demais produtos ligados à agricultura e à floresta; o desaparecimento progressivo dos animais de trabalho: bovinos, muares e asininos; o aparecimento de moagens mecânicas com tecnologia mais avançada; o consumo generalizado do pão fabricado em padarias, que passou a chegar, directamente, a casa das famílias.
 
Nas vésperas de Natal de 2006, revisitei ao locais onde, acompanhado de meus Pais Elisa e David e de meu irmão Fernando, assisti, desde criança, ao pisar das uvas e às festas do Natal e da matança do porco e vivi, alguns momentos agradáveis da minha juventude.
 
As imagens que recolhi têm tanto de fantásticas como de desoladores. Pouco a pouco a Natureza vai engolindo a Cultura criada pelo Homem. Do complexo pouco resta de pé. Daqui mais uns anos os vestígios ainda existente desaparecerão para sempre. Restará a memória que ficar registada.
 
Assim chegaram ao fim engenhos motores, assentes em técnicas primitivas do artesanato local, que há muito, tinham substituído a força do braço pela acção das correntes da água e do vento. Excelentes fontes de energia natural que até agora não fomos capazes de aproveitar, para a ajudar a salvaguardar o ameaçado Planeta onde teremos de continuar a viver.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Principais Obras de Referência.
 
 
DIAS, Jorge, 1964, “Moulins Portugais” in Revista de Etnografia, 6, Porto.
GALHANO, Fernando, 1978, Moinhos e Azenhas de Portugal. Lisboa.
OLIVEIRA, Ernesto Veiga, 1967, “Moinhos de Água em Portugal” in Geográfica, 9.
OLIVEIRA, Ernesto Veiga, de, GALHANO Fernando e PEREIRA, Benjamim, 1983, Tecnologia Tradicional Portuguesa- SISTEMAS DE MOAGEM. Lisboa, INIC, Centro de Estudos de Etnologia. p. 520.
 
 
Investigação e texto de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
 
FIM
 
A todos os que leram este trabalho um Bem Haja, dos Autores.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
publicado por casaspretas às 10:26
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Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(VIII)

 

 
 
PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
(1944-1949)(VIII)
 
 
(CONTINUAÇÃO)
 

 

 
DISTRIBUIÇÃO E TRANSPORTE DO GRÃO/FARINHA
 
 
Com já foi referido anteriormente, cabia, então, especialmente, aos moleiros, quase todos com engenhos próprios, a tarefa de, semanalmente, se deslocarem a casa dos seus fregueses para carregar o os foles ou taleigos/as com o cereal e depois retornarem com a farinha, utilizando para o efeito animais de carga.
 
No princípio do século XX, segundo dados recolhidos, cada um dos moleiros com actividade em Mouriscas, já tinha os seus fregueses, a casa dos quais se deslocava, semanalmente, para carregar os foles ou taleigos/as com o cereal e depois retornarem com a farinha, utilizando para o efeito animais de carga, procedimento que se manteve até à paralisação dos engenhos verificada pelos anos 60 do século passado.
 
Cada moleiro tinha a sua área de influência, que nunca ficava muito afastada dos engenhos e abrangia vários casais contíguos ou não. Dado que aqueles engenhos ficavam situados em locais ermos, distantes alguns quilómetros dos diferentes casais da freguesia, ele procurava, para não perder demasiado tempo no percurso, trabalhar numa área deles o mais próxima possível, podendo até recusar fregueses dispersos de casais distantes.
 
A escolha de um moleiro por parte de cada morador dependia de múltiplos factores: relações familiares, de amizade, de simpatia e das qualidades morais, da seriedade, da boa ou má fama de cada profissional, não pondo de parte o seu próprio interesse.
 
Por tradição, os fregueses mantinham-se fiéis ao seu moleiro, mantendo-se essa fidelidade durante gerações. Contudo, a mudança poderia surgir de ambas as partes: Por um lado, o moleiro deixar de merecer a confiança do freguês por não fornecer uma farinha de qualidade, meter a mão na maquia e deixar de cumprir as datas estipiladas, ... ; por outro o freguês tentar enganar o moleiro, misturando, propositadamente, objectos estranhos no cereal( areia, pedras, ... ), colocar o bom cereal no cimo do fole e por debaixo dele cereal com fundo, joio, ervilhaca, ... , não pagar farinha fornecida, etc. Para além destes poderiam existir motivos de outra natureza que poderia levar à ruptura de confiança entre as partes.
 
De 2ª à 6ª feiras, quer chovesse ou fizesse sol, muitas vezes de manhã e de tarde, cada moleiro ou sua família- esposa e ou filhos solteiros- tinha de cumprir em cada dia o itinerário, previamente, traçado que podia abranger mais de um casal.
 
Recordo-me que, enquanto andei à freguesia, ter fregueses nos Cascalhos, Cumeada, Sentieiras, Fonte Branca, Canhenhos,    , Engarnais Fundeiros, Camarão, Outeirinho, Outeiro Cimeiro, Casal da Milha, Casas Pretas e Casal da Figueira.
 
Chegado a casa de um freguês o moleiro deixava o fole de farinha e carregava outro com cereal. Quando apenas dispunha de um fole, então, despejava a farinha e enchi-o com cereal para moer. Esse intervalo de tempo era aproveitado para um pouco de cavaqueira.
 
As quantidades de cereal, habitualmente milho, mandadas, semanalmente, eram variáveis de freguês para freguês, oscilando entre o meio alqueire(7 litros) e alqueire e meio(21 litros). O trigo só se mandava moer em datas festivas como os Santos Natal, Páscoa, casamentos e baptizados, ..., tempo em que se devia comer o pão alvo, bolos e fritos. Apenas um ou outro agricultor mais abastado consumia pão de trigo no dia-a-dia. Não eram aconselháveis foles com mais de alqueire e meio por serem mais difíceis de manejar, carregar e descarregar das bestas.
 
Os fregueses que não tinham “pão” encomendavam ao moleiro a farinha de que necessitavam em cada semana para a sua família, que na semana seguinte era entregue.
 
Até à década de 40 do século XX o moleiro moía o grão fole a fole, entregando a cada freguês a farinha do seu cereal. Depois daquela data nem sempre assim acontecia, começando a fazer-se a troca do grão por farinha. Só a pedido do freguês assim não se procedia. Este novo procedimento era vantajoso para o moleiro, uma vez que lhe dava menos trabalho, mas nem sempre favorável para o freguês que podia mandar bom cereal e receber farinha de má qualidade.
 
Os moleiros faziam o transporte dos cereais dos fregueses ou dos adquiridos, na freguesia ou fora dela, com muares ou asininos, quer através de cargas no seu dorso, quer com a ajuda de carroças. Contudo, dados os difíceis acessos que levavam aos engenhos, utilizavam-se mais as bestas de carga. Cada uma podia transportar entre 10 e 15 alqueires de “pão”.
 
Cada moleiro dispunha de um ou dois animais de carga. Para que estes animais pudesse transportar a carga sobre o dorso era indispensável uma albarda com os respectivos atafais, sobre a qual se colocava um enxerga de palha e por cima desta um pano de saco ou uma velha manta de trapos, que era segura por um cilha de pano ou couro, som uma fivela numa das pontas, que passava pelo ventre do animal.
 
Em cima da albarda era colocada a carga, cujo o arranjo exigia arte e mestria. O moleiro muitas vezes podia ter de carregar 10 a 12 foles, de alqueire e tinha de ser perito na disposição que tinha de dar aos mesmos para a carga ficasse equilibrada e não dependesse para um dos lados. Com a ajuda de uma corda de sisal( a corda de enquirir/enquerer), com aproximadamente cinco metros de comprido e dois centímetros de grossura(diâmetro), enquiria os foles ou sacos de modo a dispô-los, equilibradamente, de cada lado da albarda, envolvendo-os com a sobrecarga( uma cilha de pano e corda) que também passava pelo ventre o animal, apertada com a ajuda de um arrocho que servia de tarraxa, segurando, deste modo a carga. No tempo de chuva usavam-se encerados destinados as resguardar as cargas, impedindo assim que se molhassem.
 
Em cada dia, no seu giro, o moleiro ou familiar, indo de casa em casa, para percorrer 4 ou 5 quilómetros demorava meio-dia, não considerando o tempo necessário para chegar ao moinho ou azenha.
As coisa tornavam-se mais complicados, no Verão, para os moleiros que tinham azenhas no Tejo, tendo de percorrer distâncias de 10 ou mais quilómetros.
 
Recordo-me das inúmeras e penosas viagens que fiz entre as Casas Pretas, onde o meu pai morava e tinha um depósito de farinha, e a azenha sedeada em Alvega, já atrás referenciada. Para percorrer a distância, de cerca de 15 quilómetros entre os dois lugares demorava cerca de 4 horas, em cada viagem. Os caminhos, com vários níveis de altitude, eram de terra e de pedras soltas, sendo incomodativo o calor e pó.
 
Os caminhos a percorrer, estreitos, que mal davam para passar um carro de bestas, era vias pouco favoráveis ao andamento dos animais, quase sempre carregavam pesadas cargas. No Verão poeirentos e no Inverno lamacentos e com grandes atoleiros.
 
Investigação e texto de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
(CONTINUA)
 
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Sábado, 4 de Novembro de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(VII)

 

 

PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS

VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO

(1944-1949)(VII)

 
 
(CONTINUAÇÃO)
 
A FARINAÇÃO
 
Depois de verificada a funcionalidade da levada, dos mecanismos dos engenhos, das cambeiras e dos pejadouros que deveria estar colocados de maneira a desviar a água das penas ou copos ou covelos e deitado o cereal nas respectivas moegas, o moleiro, com a ajuda de adufas de madeira, fazia seguir a água da levada para o cubo ou roda e, de imediato, dirigia-se para junto das mós, já preparadas para começar a laborar.
 
No caso concreto, o levantamento do pejadouro não era imediato em virtude do cubo demorar alguns minutos a encher. Só depois de cheio se procedia à operação, isto é, a água começava a bater nas penas do rodízio e a fazê-lo movimentar.
 
Postas em movimento as pedras o moleiro começava por verificar a qualidade da farinha: áspera ou macia. Para o caso do trigo tinha de verificar se o farelo ou muito ou pouco cortado e de seguida, consoante o caso, regular a altura da nadadeira com a ajuda do aliviadouro e a telha da moega com o auxílio do arrojo. Esta operação era feita regularmente de modo a poder corrigir qualquer alteração que, porventura surgisse no sistema.
 
A quantidade de grão transformada em determinada unidade de tempo era variável, dependo de factores como:
 
-potência da força motriz dos engenhos que dependia da época do ano, sua localização e tipos: maior com abundância de água, estar em Ribeiras ou Tejo, serem de rodízio ou de roda hidráulica;
-o diâmetro das mós;
-a dureza e a qualidade dos cereais. Os de maior dureza e com impurezas como joio, ervalhaca, areia ou pedras levavam mais tempo a transformar.
 
Pela minha experiência, diria, que em média, nos moinhos de rodízio um alqueire de milho( 14 litros ou 10,5 quilos) levava 90 minutos a ser transformado em farinha, contra 50 minutos de um alqueire de trigo.
 
Por informação dos moleiros entrevistados, os moinhos de roda hidráulica moíam, no mesmo tempo, o dobro de cereal. Face a tal rendimento justificava-se os maiores custos com a sua instalação, devidos à roda, carretos, entrosgas, ... .
 
Nas azenhas do Tejo e nos moinhos de vento o tempo, para moer um alqueire de milho, diminuía para 15 minutos ou seja eram 6 vezes mais produtivas.
 
Estes dois engenhos deixavam de ser usados com o início da época das chuvas, exigindo, por parte dos moleiros um conjunto de trabalhos a fazer:
 
-nas azenhas do Tejo apenas ficavam o bloco de alvenaria em que assentavam as pedras ou mós e a roda. As restantes partes eram removidas, como a cobertura, a moega, as cambeiras, ... ;
-quanto aos moinhos de vento apenas eram removidas as velas, às vezes os braços, e a cordoaria.
 
 
 
PARAGEM AUTOMÁTICA DOS ENGENHOS
 
 
Sempre que tinha de abandonar, por algum tempo, o local onde se estava a processar a transformação do grão, ou às vezes, durante a noite, o moleiro utilizava um engenhoso sistem,a já anteriormente descrito, que permitia desviar a água das penas do rodízio ou dos covelos da roda hidráulica Bastava para o efeito ligar o pejadouro ao taco que mergulhado na moega, fazia parar automaticamente o mecanismo. Mas uma avaria no rudimentar sistema era bastante para inutilizar as mós, que, por falta de cereal, aumentavam a velocidade e atingiam altas temperaturas que alteravam a sua estrutura.
 
 
A PICAGEM DAS PEDRAS OU MÓS
 
A fricção permanente das pedras com o grão a transformar provocava o alisamento das partes em contacto, facto que dificultava o bom corte e, assim, a diminuição do rendimento produtivo.
 
Para ultrapassar tal situação os moleiros, de acordo com a quantidade, qualidade e natureza do “pão” moído e do tipo de pedra tinham de proceder à sua picagem, de tempos a tempos.
 
A sua experiência dizia-lhe que nas Ribeiras uma alveira, depois de moer 40 a 50 alqueires de trigo, tinha de ser picada. Se tal não acontecesse a farinha, de extrema alvura, sairia com muito farelo, muito dele com farinha incorporada, facto que acarretava prejuízo para os fregueses, que, com menos farinha faziam menos pães.
 
No que concerne as pedras secundeiras elas conseguiam moer entre 80 e 100 alqueires de milho, sem necessidade de picagem.
 
Nas azenhas do Tejo a picagem tinha de ser feita quase todos os dias em virtude da maior quantidade de cereal moído, que rondava os 80 a 100 alqueires por cada 24 horas.
 
A pedra alveira, por ser mais macia e por isso sujeita a maior desgaste, exigia uma picagem mais fina. Daí o tempo de picagem ser maior do que o gasto com as segundas. Poder-se-á afirmar que, em média, a picagem de um casal de pedras exigia cerca de 12 horas de trabalho, que podia variar consoante a prática de quem picava, o diâmetro das pedras e o estado dos picos.
 
Este trabalho era, normalmente, realizado pelos moleiros e seus familiares( esposas e filhos), num total de quatro pessoas- duas para cada pedra-, que usavam, para o efeito, picos em ferro, com pontas de aço e em bico, constituídos por um corpo grosso o modo, de forma prismática, com um olhal no centro, onde era colocado um cabo de madeira. Estes artefactos tinham um comprimento e espessura variáveis, que, geralmente, não ultrapassavam os 20 centímetros de comprimento e 3 centímetros de face, para não pesar muito.
 
A picagem das pedras exigiam várias operações, prévias e posteriores a esta acção, para a realização das quais era necessário o seguinte material: dois malhais, dois rolos de madeira e uma tranca, em madeira, e uma alavanca em ferro.(Fig. X) Eis as principais:
 
 
 

 
                       Fig. X- Objectos para descer e subir a andadeira.
 
 
 
1ª- Começava-se por tirar a moega ou levantá-la para junto do tecto e as cambeiras.
 
2ª- Levantava-se a andadeira com a ajuda da alavanca e debaixo dela punham-se, simetricamente, os dois rolos de madeira de freixo(madeira rija), cada com cerca de 50 cm de comprido, por 8 cm. de diâmetro, um de cada lado da sobrelha, a meio da distância entre o extremo da pedra e o olho, sendo colocado em primeiro lugar o da frente.
 
3ª- Utilizava-se a tranca, também em freixo, com cerca de 1,10 cm. de comprimento e 12 cm. de diâmetro, que numa das extremidades tinha um chanfro abaulado, que era colocada no olho da pedra andadeira.
 
4ª- Depois de colocados no sobrado e em frente do casal de mós, os dois malhais, fixos ou não, a uma distância de 20 a 30 cm. A mó móvel era então deslocada, com a ajuda dos rolos e da força humana até que o dito chanfro encaixasse no rolo do lado do chão. Então a dita mó descaía com a ajuda da tranca e assentava nos malhais.
 
5ª- Posta em cima dos malhais, a mó era colocada em posição vertical, ou pouco inclinada para trás, posição possível, devido a sacos e foles que a mantinham em tal posição.
 
6ª-Nesta posição procedia-se à picagem das duas mós- fixa e andadeira- de modo a fazer desaparecer as superfícies lisas e torná-las ásperas, isto é, com pequenas saliências para melhorem triturar os grãos.
 
As pessoas encarregadas da picagem trabalhavam sentadas e usavam óculos de vidro, tipo máscara, para evitar de pedaços de pedra ou de aço saltassem para os olhos. À medida que o trabalho ia progredindo era necessário varrer, com uma vassoura de palma, as partículas de pedra destacadas pelos picos, para assim poder-se distinguir-se a parte picada da não picada, dado que tais partículas tudo encobriam.
 
Para a realização das picagem aproveitavam-se os fins de semana ou feriados, dias em que os moleiros ou seus familiares não iam à freguesia.
 
Os picos no fim de cada operação ficavam com os bicos rombos e por isso era necessário levá-los ao ferreiro, que através de uma têmpera especial, os voltava a aguçar adequadamente. Ao fim de muitas destas operações os picos, que iam diminuindo de tamanho em cada uma delas, tornavam-se inúteis para a sua verdadeira função.
 
Após a conclusão da picagem tornava-se repetir as operações acima referidas, mas desta vez, de modo inverso: colocação dos rolos, um na extremidade mais próxima dos malhais e ou outro encostado para além da sobrelha; depois encostava-se a andadeira ao rebordo da pedra fixa e de seguida encaixava-se a extremidade chanfrada da tranca no primeiro rolo e com a ajuda daquela levantava-se de modo a rolar sobre os dois rolos.
 
Logo que a dita pedra estivesse em posição de encaixar na sobrelha, colocava-se uma cunha de madeira no primeiro rolo(do lado de fora) e com a ajuda da alavanca retirava-se o rolo do lado de dentro, primeiro, e depois o outro. Por último, centrava-se e nivelava-se a andadeira com o auxílio da alavanca. O moleiro por tentativas conseguia estabelecer o equilíbrio que permitia que a pedra não se desgastasse de forma desigual. Uma vez conseguido colocava tacos de madeira rija entre a sobrelha e o outro lado do olhal, fixando-a. Colocava depois as cambeiras e farinha entra elas e por fim punha a moega no seu lugar.
 
A primeira farinha obtida após a picagem. Por conter areia, era áspera e de má qualidade. Por isso o moleiro utilizava um ou dois litros de cereais seus, aproveitando essa farinha para alimentação dos animais.
 
 
Investigação e texto de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
 
(CONTINUA)
 

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Segunda-feira, 25 de Setembro de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(VI)

 
PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
(1944-1949)(VI)
 
(CONTINUAÇÃO)
 
 
PREPARAÇÃO E FUNCIONAMENTO TEMPORAL DOS ENGENHOS
 
As duas Ribeiras: Arcês e do Rio Frio, onde estavam instalados os engenhos dos moleiros de Mouriscas, tinham um caudal de água que permitia o seu funcionamento durante quase todo o ano, embora no pino do Verão, o não fizessem diariamente. Tal poderia acontecer sempre que os açudes e as levadas não tivessem fugas de água.
 
De realçar que a roda vertical, que exige menos água para o funcionamento do engenho, terá surgido, em Mouriscas, na segunda década do passado.
 
Mas o normal funcionamento dos engenhos, que dependia, essencialmente, da regularidade das chuvas caídas durante o ano, verificava-se entre Novembro e Abril de cada ano, período em que, nos meados do século XX, se podia farinar 24 horas por dia, se houvesse pão para isso, ressalvados os tempos da picagem das pedras ou de uma ou outra avaria.
 
Quando havia água suficiente na Ribeira a levada tinha a capacidade para transportar água para vários engenhos. No caso presente, podiam funcionar, simultaneamente, três rodízios e uma roda de lagar de azeite, propriedade de três pessoas diferentes.
 
Era vulgar na freguesia de Mouriscas construir-se junto a um moinho de rodízio, um lagar de azeite. Este procedimento tornava o empreendimento mais barato, uma vez serem comuns: o açude a levada e o caminho que acompanhava a levada em todo o seu percurso.
 
Havia anos que as chuvas começavam em Setembro, o que permitia começar a laborar em Outubro. Em anos de pouca chuva em Abril as Ribeiras iam secas.
 
Depois de Maio os moleiros começavam a preparar as azenhas sediadas no Tejo e os moinhos de vento, dado que era nesta altura do ano que, por um lado, as águas do rio deixavam as pedras de moer a descoberto e permitia a construção de novos diques e a instalação provisória de uma casota de madeira, coberta a palha ou zinco, e por outro, e o vento passava a ter maior regularidade.
 
O meu avô José Lopes Mestre tinha uma azenha no lugar do Cachão, perto dos Cascalhos, da freguesia de Mouriscas e dois moinhos de vento, um no lagar de Sentieras, junto ao Tejo, herdado de seu pai Manuel Lopes Mestre, e o outro, na Atalaia, instalado num morro que fica entre o Pombo e a Balsa, que era do seu irmão Feliciano Mestre. Mais tarde passou para o moleiro Francisco da Ponte.
 
Tenho deste último moinho gratas recordações. A sua excelente visibilidade, do lugar das Casas Pretas, onde nasci e cresci, permitia, todos anos esperar, com alguma ansiedade, o início da montagem e desmontagem do velame, que tinha lugar, em Junho e Setembro, respectivamente.
 
O meu pai David era proprietário de uma outra azenha, instalada no Tejo, no lugar de Lezírias, da freguesia de Alvega, em frente da povoação de Ortiga. O grão e a farinha eram transportados de barco movido com a ajuda de uma vara, que, da margem direita do Tejo, se deslocava até ao engenho e vice-versa. Pelo menos durante dois Verões, o jovem aprendiz de moleiro, que, hoje, vos escreve estas memórias, acompanhado de um macho carregado de milho/ farinha, percorria, durante cerca de três horas, o longo caminho que separava as Casas Pretas, local do depósito de farinha e a Ortiga.
 
Os processos motores das azenhas do Tejo e dos moinhos de vento, tal como os dos moinhos de roda hidráulica das ribeiras, eram de grande complexidade, visto haver necessidade de transformar o movimento vertical da roda ou moinho em movimento de rotação horizontal. Pelo facto de existirem carretos e entrosgas, feitas em madeira, as avarias eram muito mais frequentes do que nos engenhos de rodízio. Devido à grande potência da força motriz, bastava partir-se um dente, para que toda a entrosga ficasse desfeita. Daí a necessidade de uma apertada vigilância do moleiro no funcionamento do engenho e na regulação da telha da moega.
 
A farinha de milho proveniente destes engenhos era sempre grosseira e áspera, em virtude de o grão ficar menos triturado. Isto acontecia por razões de natureza técnica: o moleiro para que a farinha se agarrasse às pedras, devido ao aquecimento excessivo, levantava um pouco a pedra andadeira.
 
 
Investigação e texto de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
 
(CONTINUA)
 
 

 

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Quarta-feira, 2 de Agosto de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(V)

 
 
 
 
 
PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
(1944-1949)(V)
 
(CONTINUAÇÃO)
A Fig. VIII mostra-nos uma casal de pedras secundeiras a moer millho, vendo-se a farinha acumulada no soalho .
 

                                        Fig. VIII- Casal de pedras em funcionamento. R.Arcês. CB. 1980
Atendendo a que, até aos meados do século XX, o consumo de pão de milho era prevalecente relativamente ao pão alvo, as pedras mais utilizadas nos diversos engenhos instalados na freguesia de Mouriscas eram as secundeiras, que também podiam moer trigo.

O trigo, que era moído, habitualmente, nas pedras alveiras, mais macias, exigia, para fornecer uma boa farinha, tanto mais branca quanto mais largo fosse o farelo, engenhos de fraca força motriz. Por isso estavam instaladas nas Ribeiras da Arcês e do Rio Frio em moinhos de rodízio. Raramente se encontravam nas azenhas do Tejo e nunca nos moinhos de vento, onde existiam uma força motriz de grande intensidade, que permitia a transformação de grandes quantidades de cereal em poucas horas, só possíveis com o milho.

As pedras alveiras, se porventura instaladas nestes engenhos, dada a velocidade a que trabalhavam, teriam tendência para aquecer demasiadamente, acontecendo, em tais casos, a farinha a elas agarrar-se, colando-as, exigindo, então, uma picagem extraordinária. Por outro lado, a farinha, por muito traçada, seria sempre mais escura.

Os moleiros, na defesa dos seus interesses, sabiam que moer trigo em moinhos com muita força significava uma perda de 2% de farinha, resultante do aquecimento das pedras.


CUIDADOS A TER COM O TRIGO

Ao contrário do que acontecia com o milho, que não exigia cuidados de maior, o trigo, antes de entrar na moega do casal de pedras alveiras, reclamava uma atenção redobrada.

Era em primeiro lugar joeirado com um crivo para expurgá-lo de algum joio, poeiras, areias, palhas, pedras e outras impurezas. Depois, quando necessário, tornava-se necessário lavá-lo para lhe tirar fungos, cuja presença, enegreceria e dava mau gosto à farinha e depois secá-lo. Finalmente, conforme a variedade, tinha de ser remolhado, para se tornar mais macio, para que forneça uma farinha parecida com a areia. Havia trigos, como o barba preta, que exigiam sempre ser remolhados.



Fig. IX. Utensílios utilizados na arte de moleiro
Nesta operação, de um excesso de água, resultava uma farinha de má qualidade, que tinha de ser consumida de imediato, sob pena de ganhar mau cheiro.

Não era, somente, o trigo a moer que reclamava cuidados especiais. Também a pedra alveira merecia redobrada vigilância por parte do moleiro. Como normalmente moía o trigo dos fregueses, de um até dois alqueires, tinha de estar sempre presente até que terminar a operação, nunca utilizando o “ automático”, descrito um pouco atrás.

CUIDADOS COM OUTROS GRÃOS

Os restantes grão a transformar e farinha, de que anteriomente, já disse algo, eram moídos na pedra secundeira, que, pela sua maior dureza, exigia menor atenção. Havia que evitar que entrassem na moega pedras ou corpos muito duros e que o grão estivesse muito húmido ou mal seco, de modo a evitar que a farinha se agarrasse às pedras e as imobilizassem.

Como já foi referenciado o cereal mais utilizado era o milho cuja transformação podia ser feita em qualquer tipo de engenho, com menos ou mais força, embora as farinhas fossem mais macias ou mais ásperas.





 
 
 
 
Investigação e texto de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
 
(CONTINUA
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Terça-feira, 11 de Julho de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(IV)

PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
(1944-1949)(IV)
 
(CONTINUAÇÃO)
CABOUCOS OU INFERNOS: APARELHO MOTOR


Os caboucos do moinho de rodízio de José Lopes Mestre que vêm sendo analisados encontravam-se ligeiramente acima do leito da Ribeira, sob o sobrado, para que o funcionamento dos rodízios não fosse prejudicado durante as cheias da mesma.

A entrada para estes espaços, destinados à instalação e funcionamento das partes motoras dos engenhos, fazia-se por estreitas entradas, por onde mal passava uma pessoa de pé.

Como já foi atrás realçado era nos caboucos que estavam montados os rodízios.
 
  
 
 

 
        Fig. VI.-Rodízio e seus componentes e grama
        Crédito: Carlos Bento, 1980.
 
Os rodízios, fabricados em ferro, eram constituídos por uma roda horizontal, com 1,30 de diâmetro e 32 penas (nº6, Fig. VI), cada uma a largura de c. 20 centímetros. No passado as penas eram de madeira;
 
Com ajuda de uma cruzeta(nº 4, ... ) ligavam-se a um veio ou eixo(nº 5), vertical, de secção redonda, com 3 metros de comprimento, feito de ferro( no passado em madeira) que ia encaixar na cruzeta do rodízio; A sua extremidade inferior terminava num aguilhão ou espigão;
 
Este espigão assentava e rolava sobre uma rela de pedra(seixo rolado)(nº2)) que estava embutida num barrote de madeira, horizontal, com cerca de 2 metros de comprimento, denominado ponte ou grama(nº1, ... ). Esta grama estava bem fixa num dos lados com a ajuda de pedras e no outro podiam ter lugar alguns pequenos deslocamentos verticais com a ajuda do aliviadouro(nº3, ... ), que consistia numa haste de ferro, encimada por um parafuso ou agulha, que estava no sobrado, junto às mós e permitia aumentar ou diminuir a distância entre a mó fixa e a mó nadadeira e assim produzir farinha mais fina ou grossa.
 
O referido veio, depois de atravessar o orifício da bucha de madeira- que servia não só de chumaceira do mesmo como também impedia o grão do cereal de cair no olho do pouso- terminava na sobrelha, sobre a qual assentava a pedra andadeira.
 
Encontramos ainda nos caboucos o pejadouro que servia para desviar dos rodízios a água proveniente da seteira. Tratava-se de uma tábua ligada ao cubo, situada no prolongamento e em frente da seteira, que subia ou descia, e era comandado do sobrado, utilizando-se sempre que era necessário parar o sistema motor do engenho. Do seu funcionamento dar-se-á conta mais adiante.
 
SOBRADO: MÓS OU PEDRAS
 
No nível superior do sobrado, com excepção da agulha, e a cerca de 60 centímetros do soalho, estavam instaladas três casais de mós, localmente, designadas por “pedras”: duas secundeiras e uma alveira.

        Fig. VII- Uma andadeira com cinta
        Crédito: Carlos Bento. 1980

Cada casal era constituído; pela pedra inferior, fixa, denominada pouso, assente e guarnecida, em alvenaria, pelo que, com excepção da parte voltada para o soalho em que se pode observar toda a sua altura, apenas alguns centímetros, da parte superior a do lado de cima, eram visíveis; e pela pedra superior, designada, por andadeira ou corredoura que apresentava, na sua face inferior um entalhe, de cada lado do olho, com cerca de 18 cm, designado por segurelhal onde encaixava a sobrelha já atrás identificada. As dimensões das mós eram: 1,10 metros de diâmetro e 30 centímetros de altura.
As mós possuíam características diferenciadas consoante o tipo de grão a transformar. Enquanto que as destinadas a moer milho, cevada, chícharos, centeio, ... - as de 2ª ou secundeiras- eram de granito e adquiridas na região Poiares, as alveiras, para trigo, eram de calcário e compradas nas terras de Condeixa
A andadeira para moer trigo tinha a particularidade de ter uma série de sulcos ou girões que permitiam a acelerar a moagem e evitar o seu excessivo aquecimento.
Devido ao contínuo desgaste provocado pelo funcionamento e picagem e consequente diminuição de volume e de peso e de modo a aumentar o seu rendimento, a andadeira era recoberta com uma camada de argamassa de cimento.
Muitas vezes, para consolidar a sua estrutura evitar a sua fractura, especialmente a alveira, a andadeira levava uma cinta de ferro.(Ver Fig. VII).
Do lado exterior da andadeira e a cerca de 5 cm. dela, colocavam-se as cambeiras constituídas por uma chapa metálica, móvel, circular, com a altura de 50 centímetros. Tinham por função evitar que a farinha de dispersasse e que a farinha fosse cair no sobrado, num espaço protegido por um pano ou panal.
Para além das cambeiras faziam ainda parte do complexo de farinação, a moega. Trata-se de uma caixa de madeira de pinho, com a forma de pirâmide invertida, com uma largura, na parte mais larga, de 60 cm. e na parte inferior de 10 cm. e uma altura de 70 cm. .
A moega que podia levar 80 quilos de cereal, encontrava-se suspensa e liga ao forro do telhado por arames.
Na sua parte inferior estava ligada à telha do grão. Uma calha alongada feita de cortiça ou madeira, com 14X6 cm, amarrada à moega e ao arrojo, por meio de fios de corda.
O arrojo era um pau de madeira que atravessava a moega e em volta do qual estava ligado um cordel. A sua principal função era a de regular, consoante a maior ou menor inclinação da telha, a quantidade de grão que deveria entrar no “olho da pedra”.
Há ainda que referenciar mais dois elemento da moega: o cadelo e o chocalho. O primeiro é formado por um pau e uma roda, usualmente de cortiça, de 25 cm. de comprimento, que está ligado à telha do grão e é responsável pela sua trepidação e pelo cair do grão no olho das mó. O segundo é constituído por um pedaço de ferro ligado à ponta de uma arame, que no cimo da moega funciona como alavanca e que continua para o seu interior amarrado a um taco de madeira que fica, quase no fundo daquela, no interior do grão. Tem por missão avisar o moleiro que o grão na moega está a acabar. Sempre que tal acontece o peso do ferro faz levantar o taco e fá-lo cair sobre a nadadeira, avisando, com o barulho que faz, o moleiro.
Ligado a este processo encontra-se, ainda, um outro, que permite parar, automaticamente, o engenho sempre que a moega está a ficar vazia. Aqui o taco está ligado ao pejadouro através de uma espécie de armadilha.
E por fim há que referir o aliviadouro, já atrás referenciado, situado ao lado de cada par de mós, que ajudava a controlar a textura da farinha: mais fina ou mais áspera.


ENGENHO DO LUGAR DE ESCORREGA. RIBEIRA DE ARCÊS

O segundo engenho a ser estudado situava-se no lugar de Escorrega, na margem esquerda da Ribeira da Arcês e era pertença da família dos Tojais. Construído em 1920, conjuntamente com um lagar de azeite, tinha dois caboucos ou infernos onde se encontravam as partes motoras.



                                Fig. VIII- Lugar de Escorrega
                                Crédito: Carlos Bento. 1980.

Num deles funcionou, durante muitos anos um rodízio , com 1,30 de diâmetro, com 28 penas de ferro. A estrutura e funcionamento eram idêntico ao descrito anteriormente.
No outro cabouco encontrava-se instalado o aparelho motor da roda vertical, de propulsão superior(Fig. IX).



                                     Fig. IX- Roda hidráulica no engenho do lugar de Escorrega
                                     Crédito: Carlos Bento. 1980

O eixo desta roda, que funcionava no exterior do edifício é horizontal e entra no interior da azenha, através de uma abertura quadrada, e aí leva uma entrosga- roda de coroa- ou seja uma roda vertical, de ferro mais pequena provida numa das suas faces de 76 dentes. Estes vão engrenar nos 18 fuselos de um pequeno carreto, cujo eixo vertical é encimado pela mó andadeira.




                             Fig. X. Entrosga e carreto assente na ponte ou grama.
                             Crédito: Carlos Bento. 1980

A roda em análise, toda ela de metal, tinha três metros de diâmetro e dois aros onde estavam inseridos 36 copos ou “covelos”, cada um com 35 centímetros de largura.
Neste engenho, a água que vem da levada e encaminhada por uma calha de madeira ou alvenaria, colocada a um nível superior ao da altura da roda,(Fig. XI) que ultrapassa o seu ponto mais alto, caindo nos copos, faz mover a roda.



                              Fig. XI- Roda hidráulica com pejadouro não activado.
                             Crédito: Carlos Bento. 1980

Uma mesma roda podia accionar dois pares de mós, bastando para tal acrescentar o seu eixo e aí montar uma segunda entrosga.
 
 
Investigação e texto de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
 
(CONTINUA)
 
 

 
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Domingo, 25 de Junho de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(III)

PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
(1944-1949)
 
(CONTINUAÇÃO)
 
EDIFÍCIOS DO LUGAR DA AZENHA DO LAGAR
 
 

 
 
Fig. II- Vários edifícios do lugar da Azenha do Lagar
Crédito. Carlos Bento, 1980.
 
Com base na Fig. II, farei de seguida a identificação do complexo de edifícios, sitos na Ribeira do Rio Frio, aliás, os últimos antes de se atingir o rio Tejo, e a sua funcionalidade. De cima para baixo, temos no primeiro plano um palheiro(nº 7) que pertencia a Francisco Domingos.
 
Do seu lado direito e do lado baixo, visualiza-se o caminho(nº 8) que se bifurcava, seguindo um para lagar de moer azeitona, de Francisco Domingos, de que se vê uma pequena parte(nº6). O outro, passava em frente da moradia de José Lopes Mestre e seguia em direcção à Ribeira.
 
Ainda no 1º plano, em cima, vemos a dita residência(nº 1), com uma porta e duas janelas. Tinha uma sala de fora e dois quatros. Do seu lado esquerdo existia a casa da farinha, com um sótão. Em toda frente uma varanda, que no seu topo norte dava acesso ao lagar de pisar uvas. Nas grandes cheias do Tejo as águas chegavam à soleira de acesso àquela varanda.
 
No outro topo da varanda, em plano mais baixo vêem-se dependências pertencentes a Joaquim Moleiro, a que se segue a residência e casa das mós da sua “azenha”(nº 5).
 
Em frente das casas do meu avô e do outro lado do caminho, tínhamos várias dependências(nº 2): do lado direito um palheiro onde se guardavam as bestas e a sua alimentação e do lado esquerdo a loja da casa que tinha grandes potes de barro e um alambique para o fabrico de aguardente, que dava acesso à cozinha, ao forno, ao curral das cabras e ovelhas e à cerca do porco, do lado esquerdo.
 
Do lado de baixo vemos um edifício com telhados desencontrados(nº 3). O de cima com uma chaminé grande destinava-se à cozinha, sala de jantar e de estar. No debaixo, com o telhado inclinado para a Ribeira, funcionava o engenho de farinar cereais.
 
Este era constituído por um primeiro sobrado que servia para guardar os cereais, foles, farinha, balança, crivos e outros utensílios da arte, no fundo do qual estava um pequeno quarto com uma cama que servia para o moleiro descansar.
 
Num segundo patamar, mais em baixo, estavam outro sobrado de madeira e um pouco elevadas dele, três pares de mós, a que corresponde as três janelas do dito edifício(nº 3), que confinava com a Ribeira. Por debaixo do sobrados tínhamos os caboucos ou infernos.
 
Do lado direito deste edifício vê-se o local onde este esteve montada uma roda hidráulica(nº 4), instalada depois de 1950.
 
 
AÇUDE, LEVADA OU VALA E SISTEMA MOTOR
 
 
A cerca de 200 metros a jusante do engenho de Manuel Baptista Santa existia um açude, com cerca de 25 metros de largura e 4 metros de altura. Tratava-se de uma larga parede, com uma leve inclinação para montante, feita de pedra seca. Para além de permitir o seu armazenamento, tinha por finalidade represar e elevar o nível da águas da Ribeira, de modo a que atingissem, através da levada, os sistemas hidráulicos de moagem a accionar. Este açude já existia em 1923.
 
 

     Fig. III- Açude com abundância de água
Crédito: Fernando Bento
 
A levada ou vala, construída em alvenaria, acompanhando a forma do relevo do terreno, tinha uma extensão que rondava os 500 metros e 0,70 de largo por 0,90 de altura.
 
A entrada de água na levada era regulada, logo no seu início, por uma adufa ou comporta que apenas permitia a circulação do líquido necessário, que podia, quando necessário, ser fechada. Logo a seguir existia uma outra, o “ladrão”, com a mesma finalidade, que encaminhava a água para a Ribeira. Tinha grande utilidade sempre que havia grandes cheias na Ribeira, evitando que a água extravasasse da levada.
 
 
 
 
 
                               Fig. IV- Levada com ladrão
                                Crédito: Fernando Bento
 
                                   
Ao longo desta levada encontravam-se, na parede exterior, algumas pequenas aberturas que serviam para deixar passar a água necessária à rega das hortas e plantas, existentes entre a mesma levada e a Ribeira. Eram fechadas quando cumprida a sua missão. O acesso ao açude e hortas era feito sobre a mesma parede, normalmente, lajeada no topo.
 
Esta levada, que fornecia água para accionar os rodízios dos engenhos de Joaquim Moleiro e José Lopes Mestre e a roda do lagar de Francisco Domingos, dividia-se em duas, a partir da “azenha” do primeiro, construídas lado a lado(nº 9), levando a do lado norte água para o dito lagar e a outra que, com a ajuda de adufas, era encaminhada para os rodízios do moinho de José Lopes Mestre, que estamos a examinar. Caso contrário, tinha como destino a Ribeira.
 
Este moinho tinha dois caboucos ou infernos, espaço onde funcionavam as partes motoras e por isso duas entradas diferenciadas de água que iam accionar dois rodízios, cada uma delas com um crivo ou grade de varas destinado a impedir a entrada de objectos estranhos, como paus, pedaços de madeira, folhagem, ... .
 
No cabouco mais antigo, a água entrava no cubo ou cuvo, de grande inclinação, de forma cilíndrica e construído em alvenaria, e saía junto e logo acima do rodízio por uma boca apertada e de secção quadrada- a biqueira ou seteira- que no caso presente era de cimento. A água sob pressão batia nas penas metálicas do rodízio fazendo-o movimentar bem como o casal de pedras secundeiras, ligadas ao seu eixo. Do edifício( nº3) referenciado correspondem à janela da esquerda.
 

 
Fig. V. Cubo com duas biqueiras
 
No outro cabouco, encontramos uma estrutura diferente. O cubo tinha uma forma de cone invertido, que permitia um maior volume de água e apresentava duas biqueiras, cada uma delas apontada para um rodízio próprio.(Fig. V) Um estava ligado a um casal de pedras secundeiras. Do edifício( nº3) referenciado correspondem à janela do meio. O outro a um casal de pedras alveiras. Do edifício( nº3) referenciado correspondem à janela da direita.
 
Raramente estavam abertas as duas biqueiras e funcionavam, simultaneamente, os dois rodízios. O seu encerramento ou maior/menor abertura era feito com a ajuda de uma palmeta de madeira.
 
 
Investigação e texto de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
(CONTINUA)
 
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Quarta-feira, 14 de Junho de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(II)

PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
 
(CONTINUAÇÃO)
Pelo facto dos meus avós paternos José Lopes Mestre (8.10.1867- 16.7.1949) e Joana Dias(2.1.1868-29.5.1959) possuírem uma azenha( moinho de água ) na Ribeira do Rio Frio, no lugar da Azenha, comecei muito jovem a ter contactos directos com moleiros e com engenhos de farinação.
 
Segundo informações prestadas pelo meu pai, David Lopes Mestre( 1897-1988), no 1º quartel do século passado, estavam instaladas e a funcionar, na Ribeira supramencionada, os seguintes engenhos, de montante para jusante, de:
 
 
1- Luís Farinha, de rodízio, com 2 casais de mós: uma de milho e outra de trigo, no lugar de S. Gabriel;
 
2- Joaquim Cadete, de rodízio, com 2 casais de mós: uma de milho e outra de trigo, no lugar de Cova de Madeiro;
 
3- Manuel Baptista (Machado), de rodízio, com 2 casais de mós: uma de milho e outra de trigo, no lugar de Cova de Madeiro, construída em 1905-1910;
 
4- Manuel Lopes Mestre, de rodízio, com 1 casal de mós de dimensão reduzida: de milho, no lugar de Cova de Madeiro, também conhecida por minhola,( muinhola= azenha pequena);
 
5- Manuel Baptista Santa, de rodízio, com 2 casais de mós: uma de milho e outra de trigo, e de roda com 1 casal de mós: de milho, no lugar de no lugar de Cova de Madeiro;
 
6- Joaquim Dias ou Joaquim Moleiro, de rodízio, com 2 casais de mós: uma de milho e outra de trigo, no lugar de Azenha;
 
7- José Lopes Mestre, de rodízio, com 3 casais de mós: duas de milho e outra de trigo, no lugar de Azenha. Este engenho apenas tinha a jusante um lagar de azeite, de Francisco Domingos, também movido a água proveniente de açude e levada ou valas, comuns
 
Esta “azenha”dos meus avós foi construída, com a residência e anexos(Fig. I) em 1922-1923, tendo toda a serventia das obras sido dada pelas minha tias Joaquina Dias( 20.3.1899-7.3.1993 e Joana Dias(4.8.1904- ), nessa data, ainda solteiras.

Fig. I- Complexo de edíficios construídos.

Após a conclusão das obras, os meus avós, que moravam no Camarrão passaram a residir no novo local, tendo por vizinhos, somente um casal: o Joaquim Moleiro, acima nomeado, e sua mulher Joaquina Moleira.

O acesso ao local, feito por um caminho estreito, assente na rocha, muito inclinado e cheio de curvas, era deveras difícil. Por ele podiam circular carros, animais de carga e pessoas. A subida com carros carregados constituía um grave problema e apenas se tornava possível com o carro quase vazio ou então puxado por duas juntas de bois ou parelhas de muares.

A Figura II, que analisaremos, mais adiante, dá-nos uma ideia dos edifícios construídos, separados pelas valas que conduziam a água de um açude comum para a azenha e para o lagar citados, existindo uma estreita ponte de alvenaria com laje de pedra, que estabelecia a passagem pedonal entre os dois complexos e permitia a passagem de pessoas e gado de pequeno porte. Voltarei ao assunto.

Entre a residência e a loja, passava um caminho pedonal que dava acesso de pessoas e animais às residências dos dois moleiros e à Ribeira, que depois de transposta, seguia pelo casal dos Farinhas até se cruzar com um caminho carreteiro, vindo do Norte. Caminho, que um pouco mais adiante, junto à passagem de nível, se direccionava para sul, acompanhando a linha do comboio, que atravessava, até à Ribeira das Boas Eiras, para depois atingir a Estação da Alvega e as duas lojas aí estabelecidas. Neste local havia uma barca- a barca da Alvega-, movida à vara, que permitia a passagem entre as duas margens do rio Tejo: Estação/Alvega, que transportava pessoas, animais e mercadorias.


Investigação de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
Texto de Carlos Bento.

(CONTINUA)




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Terça-feira, 2 de Maio de 2006

MOINHOS E AZENHAS. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO(I)

 
PARA A ETNO-HISTÓRIA DE MOURISCAS
VIVÊNCIAS E MEMÓRIAS DE UM JOVEM MOLEIRO
Da sociedade tradicional, predominantemente agrícola, em que nasci, cresci e aprendi a ser homem, pouco ou nada resta. Muitos dos seus usos e costumes, artes e ofícios, saberes de experiência feita de símbolos, perderam significado e sentido e apenas são conhecidos e postos em prática por mourisquenses já no entardecer da vida.
 
Toda essa cultura, material e simbólica, faz parte da memória da freguesia e para que Mouriscas não perca a sua identidade torna-se necessário concretizar, quanto antes, o seu levantamento e registo, sob pena de se perder para sempre. Quem ainda a conhece, a aprendeu, a viveu e a pôs em prática, encontra-se neste momento da última etapa do seu ciclo de vida. Com a sua saída do mundo dos vivos perderemos um saber-fazer acumulado aprendido ao longo da vida, já de si, resultado de uma experiência milenária com raízes na Idade da Pedra Polida.
 
O Homem do Neolítico, com descoberta da agricultura, a domesticação de alguns animais e a sedentarização, verificadas há cerca de 10 000 anos, viria a construir as bases culturais da nossa sociedade rural tradicional, que, com algumas alterações, conseguiria sobreviver até aos meados do século XX.
 
Com a chamada Revolução Verde, que originaria a primeira grande mudança na estrutura sócio-cultural da Humanidade, alguns seres humanos passaram a dispor, regularmente, de mais e melhores alimentos- cereais, legumes, fruta, carne, leite, queijo- e de excedentes que lhes permitiriam ultrapassar os períodos de escassez e alimentar mais gente, incluindo, grupo de pessoas não ligadas a actividades agrícolas.
 
Na posse de cereais como o trigo, o milho, o centeio, a cevada, ... , o Homem teve de descobrir e inventar processos que permitissem uma utilização, eficaz e eficiente, na sua alimentação. Um deles seria o consumo dos cereais sob a forma de pão.
 
Para que tal acontecesse, teve de inovar e de ser capaz de transformar os grãos em farinha. Sabe-se que numa primeira fase utilizou rudimentares engenhos de triturar, accionados com a ajuda da energia muscular humana: trituradores, de vai-vém e de pancada, mós planas, rebolos, almofarizes, pilões e mós rotativas. Usou, depois, as atafonas accionadas por animais de tiro. E, mais tardiamente, a partir da Idade dos Metais, com um significativo aumento da produção cerealífera, como resultado da inovação e aperfeiçoamento das técnicas agrícolas, apareceriam os moinhos de água- moinhos de rodízio e azenhas- e os moinhos de vento, engenhos estes movidos com a ajuda de energia natural: água e vento, que, através de difusão cultural chegariam a Portugal e seriam disseminados por todo o território nacional.
 
A freguesia de Mouriscas, sita no médio Tejo e no alto Ribatejo, embora não disponha dos solos mais aconselháveis para a sua cultura, teve nos cereais- milho, trigo, centeio e aveia- uma das suas produções básicas. E dada a importância do pão(de milho) na alimentação diária das famílias, uma riqueza essencial na sua sobrevivência.
 
Factores geográficos, como a situação entre duas ribeiras, o rio Tejo como limite sul e solos muito movimentados, favoreceram e permitiram a instalação de moinhos de água e de vento, que ainda laboravam por volta de 1950. Foram estes engenhos, instalados nas margens das Ribeiras de Arcês(esquerda) e Rio Frio(direita), cerca de dezena e meia, no rio Tejo, três ou quatro, e nalguns morros altos da freguesia(moinhos de vento), pouco mais de uma dúzia, que serviram para moer os supra referidos cereais, cuja farinha, depois de transformada em pão, alimentou muitas gerações de mourisquenses.
 
Cabia, então, especialmente aos moleiros, quase todos com engenhos próprios, a tarefa de, semanalmente, se deslocarem a casa dos seus fregueses para carregar o os foles ou taleigos/as com o cereal e depois retornarem com a farinha, utilizando para o efeito animais de carga.
 
Muitos desses moinhos e azenhas ainda fazem parte do meu imaginário de criança, ainda bem vivo na minha memória, não só pelo facto de ter familiares paternos na arte(pai do pai e pai) como também a ter praticado, como ajudante, durante a minha juventude, entre 1944( ano em que fiz a 4ª classe) e 1949(ano em que completei o 2º ano dos liceus).
 
Será esse património artesanal de Mouriscas, freguesia que me viu nascer e me ensinou a crescer com humanidade, essa arquitectura rural contemporânea, actualmente, abandonada e em vias de desaparecimento, que servirá de base ao texto que se segue, e será apresentado, neste Blogue, por partes.
 
Darei, neste trabalho, de natureza etnográfica e histórica, maior relevo aos engenhos de farinação que foram propriedade dos meus familiares e onde passei alguns anos da minha juventude e aprendi a fazer fazendo: a “azenha”do rio Frio.
 
Investigação de Isabel Maria Bento, Prof.ª de Geografia e Carlos Bento, etnólogo e prof. universitário.
Texto de Carlos Bento.
(CONTINUA)
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publicado por casaspretas às 16:59
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